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Livro 1 - Do descobrimento do Brasil - Capítulo 15 - Da cura dos seus enfermos e enterro dos mortos

De Atlas Digital da América Lusa

Não há entre este gentio médicos sinalados, senão os seus feiticeiros, os quais moram em casas apartadas, cada um per si, e com porta mui pequena, pela qual não ousa alguém entrar, nem tocar-lhe em alguma coisa sua; porque se algum lhas toma, ou lhes não dá o que eles pedem, dizem vai, que hás de morrer, a que chamam lançar a morte, e são tão bárbaros que se vai logo o outro lançar na rede sem querer comer, e de pasmo se deixa morrer, sem haver quem lhe meta na cabeça que pode escapar, e assim se podem estes feiticeiros chamar mais mata-sanos, que médicos, nem eles curam os enfermos, senão com enganos chupando-lhes na parte que lhes dói, e tirando da boca um espinho ou prego velho, que já nela levavam, lho mostram dizendo que aquilo lhes fazia o mal, e que já ficam sãos, ficando eles tão doentes como de antes. Outros médicos há melhores, que são os acautelados, e que padeceram as mesmas enfermidades, os quais aplicando ervas, ou outras medicinas, com que se acharam bem, saram os enfermos, mas se a enfermidade é prolongada; ou incurável, não há mais quem os cure, e os deixam ao desamparo. Testemunha sou eu de um, que achei na Paraíba tolhido de pés e mãos, à borda de uma estrada, o qual me pediu lhe desse uma vez de água, que morria de sede, sem os seus, que por ali passavam cada hora, lha quererem dar, antes lhe diziam que morresse porque já estava tísico, e que não servia mais que para comer o pão aos sãos; mandei eu buscar água por uns que me acompanhavam e, entretanto, o fiquei catequizando porque ainda não era cristão, e de tal maneira se acendeu na sede de o ser, e de salvar sua alma, que vinda a água, primeiro quis que o batizasse, que beber, e daí a poucos dias morreu em um incêndio de uma aldeia, onde o mandei levar, sem haver quem o quisesse tirar da casa que ardia, vendo que não tinha ele pés nem forças para se livrar. Donde se vê a pouca caridade que tem este gentio com os fracos e enfermos, e juntamente a misericórdia do Senhor, e efeitos da sua eterna predestinação, a qual não só neste, mas em outros muitos manifesta muitas vezes, ordenando que percam os religiosos o caminho que levam, e vão dar nos tigipares ou cabanas com enfermos que estão agonizando, os quais recebendo de boa vontade o sacramento do batismo se vão a gozar da bem-aventurança no céu. Tanto que algum morre o levam a enterrar, embrulhado na mesma rede em que dormia, e a mulher, filhas e parentas, se as tem, o vão pranteando até a cova com os cabelos soltos lançados sobre o rosto, e depois o pranteia ainda a mulher muitos dias: mas se morre algum principal da aldeia, o untam todo de mel, e por cima do mel o empenam com penas de pássaros de cores, e põem-lhe uma carapuça de penas na cabeça com todos os mais enfeites, que ele costumava trazer em suas festas, e fazem-lhe na mesma casa, e rancho onde morava, uma cova muito funda e grande, onde lhe armam sua rede, e o deitam nela assim enfeitado com seu arco e flechas, espada e tamaracá, que é um cabaço com pedrinhas dentro, com que costumam tanger, e fazem-lhe fogo ao longo da rede para se aquentar, e põem-lhe de comer em um alguidar, e a água em um cabaço, e na mão uma cangueira, que é um canudo feito de palma cheio de tabaco, e então lhe cobrem a cova de madeira, e de terra por cima, que não caia sobre o defunto, e a mulher por dó corta os cabelos, e tinge-se toda de jenipapo, pranteando o marido muitos dias, e o mesmo fazem com ela as que a vem visitar, e tanto que o cabelo cresce até lhe dar pelos olhos, o torna a cortar, e a tingir-se de jenipapo, para tirar o dó, e faz sua festa com seus parentes, e muito vinho. O marido quando lhe morre a mulher também se tinge de jenipapo, e quando tira o dó se torna a tingir, tosquia-se e ordena grandes revoltas de cantar, e bailar, e beber, nestas festas se cantam as proezas do defunto, ou defunta, e do que tira o dó, e se morre algum menino filho de principal o metem em um pote, posto em cócoras, atados aos joelhos com a barriga, e enterram o pote na mesma casa, e rancho, debaixo do chão, e ali o choram muitos dias.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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