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Livro 1 - Do descobrimento do Brasil - Capítulo 5 - Das minas de metais e pedras preciosas do Brasil

De Atlas Digital da América Lusa

Já no capítulo terceiro, comecei a murmurar da negligência dos portugueses, que não se aproveitavam das terras do Brasil, que conquistaram, e agora me é necessário continuar com a murmuração, havendo de tratar das minas do Brasil, pois sendo contígua esta terra com a do Peru, que a não divide mais que uma linha imaginária indivisível, tendo lá os castelhanos descobertas tantas e tão ricas minas, cá nem uma passada dão por isso, e quando vão ao sertão é a buscar índios forros, trazendo-os à força, e com enganos, para se servirem deles, e os venderem com muito encargo de suas consciências, e é tanta a fome que disto levam, que ainda que de caminho achem mostras, ou novas de minas, não as cavam, nem ainda as vêem, ou as demarcam. Um soldado de crédito me disse, que indo de São Vicente com outros, entraram muitas léguas pelo sertão, donde trouxeram muitos índios, e em certa paragem lhes disse um que dali a três jornadas estava uma mina de muito ouro limpo, e descoberto, donde se podia tirar em pedaços, porém que receava a morte se lha fosse mostrar, porque assim morrera já outro que em outra ocasião a quisera mostrar aos brancos; e dizendo-lhe estes, que não temesse, porque lhe rogariam a Deus pela vida, prometeu que lha iria mostrar, e assentaram de partir no dia seguinte pela manhã, porque aquele era já tarde, com isto se apartou o índio para o seu rancho, e quando amanheceu o acharam morto, e como morreram todos, não houve mais quem tivesse ânimo para descobrir aquela riqueza, que a mesma natureza / segundo dizia o índio / ali está mostrando descoberta. Outra entrada fez um Antônio Dias Adorno, da Bahia, em que também achou de passagem muitas sortes de pedras preciosas, de que trouxe algumas mostras, e por tais foram julgadas dos lapidários. De cristal sabemos em certo haver uma serra na capitania do Espírito Santo em que estão metidas muitas esmeraldas, de que Marcos de Azevedo levou as mostras a el-rei, e feito exame por seu mandado, disseram os lapidários, que aquelas eram da superfície, e estavam tostadas do sol, mas que se cavassem ao fundo as achariam claras e finíssimas, pelo que el-rei lhe fez mercê do hábito de Cristo, e de dois mil cruzados, para que tornasse a elas, os quais se não deram; e o homem era velho e morreu sem haver mais até agora quem lá tornasse. Também há minas de cobre, ferro e salitre, mas se pouco trabalham pelas de ouro e pedras preciosas, muito menos fazem por estoutras. Não ponho culpa a el-rei, assim porque sei que nesta matéria lhe tem dado alguns alvitres falsos e, diz Aristóteles, que é pena dos que mentem não lhes darem crédito quando falam verdade, como também porque não basta mandar el-rei, se os ministros não obedecem, como se viu no das esmeraldas de Marcos de Azevedo.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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