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Livro 2 - DA HISTÓRIA DO BRASIL NO TEMPO DO SEU DESCOBRIMENTO - Capítulo 4 - Da terra e capitania do Espírito Santo, que el-rei doou a Vasco Fernandes Coutinho

De Atlas Digital da América Lusa

Não teve menos trabalhos com a sua capitania Vasco Fernandes Coutinho, a quem el-rei, pelos muitos serviços que lhe havia feito na Índia, lhe fez mercê de 50 léguas de terra por costa, o qual a foi conquistar, e povoar com uma grande frota à sua custa, levando consigo a d. Jorge de Menezes o de Maluco, e d. Simão de Castelo Branco, e outros fidalgos, com os quais avistando primeiro a serra de Mestre Álvaro, que é grande, alta e redonda, foi entrar no Rio do Espírito Santo, o qual esta em 20°; onde logo à entrada do rio, da banda do sul, começou a edificar a vila da Vitória, que agora se chama a Vila Velha em respeito da outra vila do Espírito Santo, que depois se edificou uma légua mais dentro do rio, na ilha de Duarte de Lemos, por temor do gentio: e como o espírito de Vasco Fernandes era grande, deixando ordenados quatro engenhos de açúcar, se tornou para o reino a aviar-se para ir pelo sertão a conquistar minas de ouro, e prata, de que tinha novas, deixando por seu loco-tenente d. Jorge de Menezes, ao qual logo os gentios fizeram tão cruel guerra, que lhe queimaram os engenhos, e fazendas, e a ele mataram às flechadas, sem lhe valer ser tão grande capitão, e que na Índia, Maluco e outras partes tinha feitas muitas cavalarias. O mesmo fizeram a d. Simão de Castelo Branco, que lhe sucedeu na capitania, e a puseram em tal cerco, e aperto, que não podendo os moradores dela resistir-lhes se passaram para outras, e tornando-se Vasco Fernandes Coutinho do reino para a sua, por mais que trabalhou o possível pela remediar, e vingar do gentio, não foi em sua mão, por estar sem gente e munições de guerra, e o gentio pelas vitórias passadas muito soberbo, antes viveu muitos anos mui afrontado deles naquela ilha, até que depois pouco a pouco reformou as duas ditas vilas. Mas enfim gastados muitos mil cruzados, que trouxe da Índia, e muito patrimônio, que tinha em Portugal, acabou tão pobremente que chegou a lhe darem de comer por amor de Deus, e não sei se teve um lençol seu em que o amortalhassem. Seu filho, do mesmo nome, também com muita pobreza viveu, e morreu na mesma capitania, e não se atribua isto à maldade da terra, que é antes uma das melhores do Brasil; porque da muito bom açúcar, e algodão, gado vaccum, e tanto mantimento, frutas e legumes, pescado e mariscos, que lhe chamava o mesmo Vasco Fernandes o meu Vilão farto. Dá também muitas árvores de bálsamo, de que as mulheres misturando-o com a casca das mesmas árvores pisadas fazem muita contaria, que se manda para o reino, e para outras partes; mas o que fez mal a estes senhores depois das guerras foi não seguirem o descobrimento das minas de ouro e prata, como determinavam, e parece que herdaram deles este descuido seus sucessores, pois descobrindo-se depois na mesma capitania uma serra de cristal, e esmeraldas, de que tenho feito menção no capítulo quinto do primeiro livro, nem disto se trata, nem de fortificar-se a terra, para defender-se dos corsários, sendo que por ser o rio estreito se pudera fortalecer com facilidade: antes levando-o pelo espiritual me disse Francisco de Aguiar Coutinho, senhor dela, que dissera a Sua Majestade que tinha uma fortaleza na barra da sua capitania, que lha defendia, e não havia mister mais, e que esta era a ermida de Nossa Senhora da Pena, que ali está, aonde do Mosteiro do Nosso Padre S. Francisco, que temos na vila do Espírito Santo, vão dois frades todos os sábados a dizer missa, e a temos a nossa conta; e na verdade a dita ermida se pode contar por uma das maravilhas do mundo, considerando-se o sítio, porque está sobre um monte alto um penedo, que é outro monte, a cujo cume se sobe por 55 degraus lavrados no mesmo penedo, e em cima tem um plano, em que está a igreja, e capela, que é de abóbada, e ainda fica ao redor por onde ande a procissão cercado de peitoril de parede, donde se não pode olhar para baixo sem que fuja o lume dos olhos. Nesta ermida esteve antigamente por ermitão um frade leigo da nossa ordem, asturiano, chamado frei Pedro, de mui santa vida, como se confirmou em sua morte, a qual conheceu alguns dias antes, e se andou despedindo das pessoas devotas, dizendo que feita a festa de Nossa Senhora, havia de morrer, e assim sucedeu, e o acharam morto de joelhos, e com as mãos levantadas como quando orava, e na tresladação de seus ossos desta igreja para o nosso convento, fez muitos milagres, e poucos enfermos os tocam com devoção que não sarem logo, principalmente de febres, como tudo consta do Instrumento de testemunhas que esta no arquivo do convento.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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