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Livro 3 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Tomé de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Manuel Teles Barreto - Capítulo 25 - De uma entrada, que nesse tempo se fez de Pernambuco ao sertão

De Atlas Digital da América Lusa

Na era do Senhor de mil quinhentos setenta e oito, em que Lourenço da Veiga governava este estado, se ordenou em Pernambuco uma entrada para o sertão em que foi por capitão Francisco Barbosa da Silva em um caravelão até ao rio de S. Francisco, e por ser a gente muita, e não caber na embarcação, foram setenta homens por terra, levando por seu cabo a Diogo de Castro, que falava bem a língua da terra, e havia já ido da Bahia a outras entradas. Estes havendo passado o rio Formoso foram cometidos de um bando de porcos monteses, com tanta fúria, e rugido de dentes, que os pôs em pavor, mas como tinham as espingardas carregadas, descarregaram-nas neles, e os fizeram voltar ficando sete mortos, que foram bons para a matulagem. Daí a nove dias, chegando à lagoa viram estar uma nau francesa, surta três léguas ao mar, para o rio de S. Miguel, da qual se haviam desembarcado 10 franceses, e estavam em uma tranqueira contratando com alguns gentios. Deram os nossos sobre eles de madrugada quando dormiam, mataram nove, ficando só um defendendo-se tão valorosamente com uma alabarda, que com estar já com uma perna cortada, ainda antes que o matassem matou um soldado nosso chamado Pedro da Costa. Os índios, que com eles estavam, eram poucos, e dizendo-lhes Diogo de Castro, que os não buscavam, senão aos franceses, se foram sem fazer alguma resistência, e os nossos seguiram seu caminho até o desembarcadouro do rio de S. Francisco, onde foi aportar o caravelão com o seu capitão, e os mais, que levava; e dali, por não terem índios, que lhes carregassem os mantimentos, e resgates, os mandaram pedir ao principal chamado Porquinho, e a outro seu contrário chamado o Seta, para que se um os não desse, os desse o outro, e eles foram tão obedientes, que de ambas as partes vieram; e assim para os contentar se foi o capitão com os do Seta, e Diogo de Castro com os do Porquinho. O Seta, depois de ter o capitão em casa, lhe cometeu que lhe queria vender uma aldeia de contrários, que tinha dali a nove ou 10 léguas, que fosse com ele, e lha. entregaria; aceitou o capitão o partido, e deixando em guarda do fato um Diogo Martins Leão com 12 homens, se foi com os mais onde o Seta os levava. Dos que ficaram com o Leão foram cinco pelas aldeias vizinhas a buscar de comer, porque os gentios delas se publicavam amigos, mas eles os mataram sem lhes haverem dado para isso ocasião alguma, e logo se foram à casa onde Diogo Martins Leão havia ficado com os mais para os matarem todos, e lhes tomarem os resgates, os quais entendendo a determinação com que iam carregaram à pressa as espingardas, e começaram a se defender valorosamente. Logo escreveu Diogo Martins uma carta a Diogo de Castro, que o socorresse, e lha mandou por um cigano, a qual vista, e o perigo, e aperto em que ficavam, deu cópia dela ao Porquinho, que logo se pôs a pregar que sempre fora amigo dos brancos, e o havia de ser até a morte, pois eles lhes levavam as ferramentas com que faziam suas roças, e sementeiras, e outras coisas boas de que eram senhores; que se fizessem prestes para os irem socorrer, porque ele se punha já ao caminho, como de feito se pôs, e dentro de 24 horas se achou junto aos cercados com 1.500 índios, em companhia de Diogo de Castro, e de mais oito homens brancos, os quais, repartidos todos em duas mangas, feito o sinal com uma corneta, deram subitamente no inimigo com tanto ímpeto que não lhes puderam resistir, e se puseram em fugida; mas como os tinham cercados com as mangas, iam lhes dar nas mãos, e foram mortos mais de 600; era isto antemanhã, e como amanheceu depois de se saudarem, e renderem as graças os que ficaram livres do cerco, lhes perguntou se sabia o capitão daquela rebelião do gentio, e por lhe dizerem que não, lhe escreveu dois escritos do que havia passado, e que logo se tornasse com boa ordem, e vigilância até se juntarem com ele, que também o ia buscar, porque entre tantos inimigos não convinha andarem espalhados: um destes escritos levava um mamaluco, que não chegou, porque os inimigos o mataram no caminho; o outro levou um índio que chegou, o qual visto pelo capitão dissimulou o temor, e alvoroço, que com ele recebeu e disse ao Seta e aos mais, que os acompanhavam, que era necessário tornar atrás a socorrer os brancos, que o Porquinho tinha posto em cerco, e com isto fez volta até um rio, que distava dali quatro léguas, onde os rebeldes o estavam já aguardando em cilada, e rebentando dela se travou entre todos uma briga, que durou até a noite, e tornando pela manhã a continuá-la, chegaram Diogo de Castro, e o Porquinho, com cujo socorro se animou mais o capitão, e combatendo-os uns por detrás, outros por diante, mataram mais de 500. Ali tomaram conselho, e assentaram que os acabassem de uma vez, e fossem a uma cerca forte, e grande, onde se haviam acolhido, dali a 12 léguas, no alto de uma serra.

Começaram a marchar, e no segundo dia chegaram a um rio, que manava de um penedo, onde acharam morto, e com os braços cortados, e as pernas, o mamaluco, que haviam mandado com

o escrito ao capitão. Dali mandaram um branco com dois negros por espias, que se encontraram com outros dois dos inimigos; um mataram, e trouxeram o outro vivo, do qual souberam que a cerca distava dali duas léguas, e que estavam nela 43 principais nomeados com toda a sua gente, mulheres e filhos.


Chegados os nossos à vista, não a quiseram os brancos dar de si senão só os do Porquinho, que já a este tempo eram vindos das suas aldeias mais de dois mil, os quais vistos pelos da cerca saíram a eles outros tantos, e fingindo os do Porquinho, depois de haverem bem batalhado, que lhes fugiam, se foram retirando até os afastar um bom espaço da cerca, e então saiu o nosso capitão com os brancos, dando-lhe sua surriada de pelouros pelas costas, e voltaram os da retirada com outra de flechas, onde tomando-os em meio trezentos, e os mais sem poderem tornar à cerca, se acolheram para os matos. A cerca tinha três mil e 236 braças em circuito, e lançava um braço até a água de que bebiam; esta lhe determinaram os nossos tomar primeiro, e posto que os de dentro a defenderam com muito esforço seis dias, contudo no sétimo foi rendida, com o que começaram a morrer de sede, e a cometer muitos partidos, e o último foi que entregariam uma aldeia de seus contrários se os brancos fossem com eles a tomar a entre a como foram, e entrando na aldeia começaram a pregar que eles os tinham vendido por serem seus inimigos, e ainda lhe faziam muita mercê em não os matarem nem os venderem a outros gentios, que os matassem ou maltratassem, senão a cristãos, que os haviam tratar cristãmente; ao que respondeu o principal da aldeia, chamado Araconda, que eles eram os que mereciam o cativeiro, e a morte, por serem matadores de brancos, e não ele nem os seus, que nunca lhes fizeram nenhum dano; e então se virou para o capitão, e lhe disse: «Branco, eu nunca fiz mal a teus parentes, nem estes me podem vender; mas eu por minha vontade quero ser cativo, e ir contigo.» O capitão lhe agradeceu com palavras, e mandou que se aprestassem dentro de quinze dias para o caminho, como fizeram; eram tantos, que indo todos em fileira um atrás de outro como costumam /, ocupavam uma légua de terra. Não sei eu com que justiça e razão homens cristãos, que professavam guardá-la, quiseram aqui que pagasse o justo pelo pecador, trazendo cativo o gentio, que não lhes havia feito mal algum, e deixando em sua liberdade os rebeldes, e homicidas, que lhes haviam feito tanta guerra e traições. Porém eles lhes deram o pago, pois apenas os haviam deixado, quando determinaram de lhe ir no alcance, e mandaram adiante alguns por espias, que se metessem pelos matos, e quando os do Araconda fossem à caça lhes dissessem que eles remordidos de suas consciências os queriam redimir do cativeiro dos brancos em que os puseram, e para isto lhes queriam dar guerra, pelo que os avisavam que quando vissem a batalha os deixassem, e se fossem embora para suas terras, porque a gente do Porquinho era já despedida, e não tinham que temer; mas posto que isto se tratou com muito segredo, o ouviu uma índia das cativas, que o disse a seu senhor, e o senhor a outros, que não creram senão depois que o viram, e não lhes aproveitou o aviso, porque os inimigos lhes deram na retaguarda, e lhes mataram 11 homens, sem os da vanguarda lhes poderem valer, assim por irem mais longe, como pelo gentio de Araconda ser acolhido, e cuidar o capitão que nenhum da retaguarda lhes haveria escapado com vida; só mandou dois negros saber se eram mortos ou vivos, os quais vendo-os cercados e postos em tanto aperto, que quase estavam desmaiados, entraram apelidando a Santo Antônio, e um com arco e flecha, outro com seu terçado, e rodela, fazendo tanto estrago, que bastou este pequeno socorro para animar os amigos, e atemorizar os inimigos, de sorte que se puseram em fugida, e os pernambucanos não os podendo já seguir, se tornaram para suas casas, mais pobres do que vieram. Tinha o governador d. Lourenço da Veiga uma coisa, e era que, por mais negócios, que tivesse, não deixava de ouvir missa, e para não obrigar alguém a que o acompanhasse, ia e vinha sempre a cavalo.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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