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Livro 3 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Tomé de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Manuel Teles Barreto - Capítulo 8 - Da entrada dos franceses no Rio de Janeiro, e guerra que lhe foi fazer o governador

De Atlas Digital da América Lusa

O Rio de Janeiro esta em 23º graus debaixo do Trópico de Capricórnio, e impropriamente se chama Rio, porque antes é um braço de mar, que ali entra por uma boca estreita, que se pode facilmente defender de uma parte a outra com artilharia; mas dentro faz uma baía, ou enseada em que entram muitos rios, e tem perto de quarenta ilhas, das quais as maiores se povoam, e as menores servem de ornar o sítio, ou de portos onde se abriguem os navios. Estas comodidades, e outras muitas deste Rio e baía, juntas com a fertilidade da terra, a faziam digna de ser povoada, quando se povoaram as mais do Brasil; mas ou porque coube na doação a Pero de Goes, que se não atreveu com o gentio, como dissemos no capítulo terceiro do segundo livro, ou por não sei que descuido, ela esteve por povoar até que Nicolau Villegaignon, homem nobre de França, e cavaleiro do hábito de São João, informado dos franceses, que por ali vinham comerciar com o gentio Tapuia, determinou de vir a povoá-la; para o que fez uma armada em que veio com muitos soldados, e entrando no rio no ano de mil quinhentos cinqüenta e seis, lhe fortificou a entrada, solicitou os gentios, e fez liga e amizade com eles, e para maior defensa começou em uma das ilhas da enseada a levantar uma fortaleza de pedra, tijolo, e gesso, em cuja obra trabalhavam os índios com muita vontade, e de França lhe vinham cada dia novos socorros. Corria já o ano de mil quinhentos cinqüenta e nove, em que reinava a rainha d. Catarina por morte de el-rei d. João seu marido, e por seu neto el-rei d. Sebastião não ter ainda a este tempo mais que cinco anos de idade; a qual, informada do que passava no Rio de Janeiro, escreveu ao governador Mem de Sá encarregando-lhe muito esta empresa, e mandando-lhe para ajuda dela uma boa armada, com a qual o governador, e com outras naus, que pôde ajuntar, acompanhado dos principais portugueses da Bahia, e alistados os mais soldados, que pôde, assim brancos como índios da terra, no ano do Senhor de mil quinhentos e sessenta se partiu para o Rio de Janeiro, onde rompendo as forças, que impediam a entrada, entrou na enseada, e tomou uma nau francesa, da qual soube não estar aí já o Villegaignon, que fora chamado a Malta, mas ter deixado um sobrinho seu por capitão na fortaleza, a quem escreveu o governador na maneira seguinte: «El-rei de Portugal, meu Senhor, sabendo que Villegaignon vosso tio lhe tinha usurpada esta terra, se mandou queixar a el-rei de França, o qual lhe respondeu que se cá estava, que lhe fizesse guerra, e botasse fora, porque não viera com sua comissão, e posto que já aqui o não acho, estais vós em seu lugar, a quem admoesto, e requeiro da parte de Deus, e do vosso rei, e do meu, que logo largueis a terra alheia a cuja é, e vos vades em paz sem querer experimentar os danos que sucederam da guerra.» Ao que respondeu o mancebo que não era seu julgar cuja era a terra do Rio de Janeiro, senão fazer o que o senhor Villegaignon seu tio lhe havia mandado, que era sustentar, e defender aquela sua fortaleza, e que assim o havia de cumprir, ainda que lhe custasse a vida, e muitas vidas, das quais lhe requeria também que não quisesse ser homicida, antes se tornasse em paz. Gastaram-se nisto dez ou doze dias, nos quais a nossa armada se pôs em ordem de guerra, e assim ouvida esta resposta, a outra que lhe deram foi de artilharia e arcabuzes, com que começaram a bater o forte insuperável / ao parecer / às forças humanas; porém estando uns outros metidos no furor do combate, Manuel Coutinho, homem pardo, Afonso Martins Diabo, e outros valentes soldados portugueses, subindo por uma parte que parecia inacessível, entraram o castelo, e ocuparam repentinamente a pólvora do inimigo. Descorçoados os franceses com a perda da pólvora, e com o inopinado atrevimento dos portugueses, desampararam o castelo à meia-noite com todas as máquinas de guerra que nele havia, recolheram-se às suas naus, e parte deles nelas se tornaram para sua terra, outros ficaram com os Tamoios/ que este é o nome daquele gentio /, assim para restaurar a guerra, e a opinião perdida, como para exercitar a mercancia com eles, de que tiravam muito proveito. Alcançada tão ilustre vitória desfez o governador o forte, por não poder deixar gente que o defendesse, e povoasse a terra, por lhe haverem morta muita gente neste combate, e mandou seu sobrinho Estácio de Sá na nau que havia tornado aos franceses com o aviso do sucesso a rainha d. Catarina.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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