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Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 17 - De uma grande traição, que o gentio de Sergipe fez aos homens da Bahia, e a guerra que o governador fez aos Aimorés

De Atlas Digital da América Lusa

Grande contentamento recebeu o governador geral Manuel Teles Barreto com as boas novas do sucesso destas guerras, e conquista, por ver a boa eleição que fizera em mandar a elas o ouvidor­geral Martim Leitão: mas como todos os contentamentos do mundo são aguados, o foi também este com uma grande traição, e engano, que lhe fez o gentio de Sergipe, dizendo que se queriam vir para esta Bahia à doutrina dos padres da Companhia de Jesus, e tomando-os por isto por intercessores, e terceiros com o governador, para que lhes desse soldados, que os acompanhassem, e defendessem no caminho de seus inimigos, se lho quisessem impedir; fez o governador sobre isto uma junta de oficiais da Câmera, e outras pessoas discretas, onde o primeiro que votou foi Cristóvão de Barros, provedor-mor da Fazenda, dizendo, como experimentado nas traições dos gentios, que se lhes respondesse que se queriam vir viessem embora, e seriam bem recebidos, e favorecidos em tudo, mas que lhes não davam soldados, porque lhes não fizessem alguns agravos, como costumam, e o mesmo votaram os mais experimentados; porém pôde tanto a importunação, e autoridade dos terceiros, alegando a importância da salvação daquelas almas, que se queriam vir ao grêmio da Santa Madre Igreja, que o bom governador lhes veio a conceder o que pediam, e lhes deu cento e trinta soldados brancos, e mamalucos, que os acompanhassem, com os quais, e com alguns índios das aldeias, e doutrinas dos padres se partiram mui contentes os embaixadores, mandando diante aviso aos seus que os viessem esperar ao rio Real, como vieram, e os passaram em jangadas a outra parte, onde estavam com tijupares feitos ou cabanas, em que os agasalharam, vindo as velhas à pranteá-los, que é o seu sinal de paz e amizade, e o pranto acabado lhes administraram os nossos seus guisados de legumes, caças, e pescados, não se negando também elas aos que as queriam, nem lho proibindo seus pais, e maridos, sendo aliás muito ciosos, que foi mui ruim sinal, e assim o significaram alguns escravos dos brancos a seus senhores, mas nem isto bastou para que se lhes não entregassem de modo como se foram suas legítimas mulheres, e nesta forma caminharam por suas jornadas mui breves, e descansados até Sergipe, e se posentaram nas suas aldeias repartidos por suas casas e ranchos com tanta confiança, como se estiveram nesta cidade em suas próprias casas, deixando as armas às concubinas, e indo-se a passear de umas aldeias para as outras com um bordão na mão, as quais lhe entupiram os arcabuzes de pedras e betume, e tomando-lhes a pólvora dos frascos lhos encheram de pó de carvão, e feito isto vieram uma madrugada gritando aos nossos que se armassem, que vinha outro gentio seu contrário, sendo que eles mesmos eram os contrários, e como os nossos estivessem tão descuidados, e se não pudessem valer das armas, ali foram todos mortos como ovelhas ou cordeiros, sem ficarem vivos mais que alguns índios dos padres, que trouxeram a nova, a qual o governador sentiu tanto, que quisera ir logo pessoalmente tomar vingança, e para, este efeito escreveu a Pernambuco ao capitão-mor, que então era d. Filipe de Moura, e a Pero Lopes Lobo, capitão-mor de Itamaracá, que se fizessem prestes com toda a gente, que pudessem trazer, para por uma parte, e por outra os combaterem, posto que depois, impedido da sua muita idade, e indisposição, lhes rescreveu que não viessem, antes fossem socorrer a Paraíba. Também neste tempo se levantou outro gentio chamado os Aimorés na capitania dos Ilhéus, que a pôs em muito aperto, do que sendo avisado o governador, ordenou que fossem Diogo Corrêa de Sande e Fernão Cabral de Ataíde, que possuíam muitos escravos, e tinham aldeias de índios forros, a ver se lhes podiam dar com eles alguns assaltos, dando-lhes mais os soldados das suas guardas com seus cabos Diogo de Miranda, e Lourenço de Miranda, ambos irmãos, e castelhanos, os quais foram todos de Juguaripe por terra ao Camamuré Tinharé, e lhes armaram muitas ciladas, mas como nunca saíam a campo a pelejar senão à traição, escondidos pelos matos, mui poucos lhes mataram, e eles flecharam também alguns dos nossos índios.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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