Ações

Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 34

De Atlas Digital da América Lusa

Muitos anos havia que voava a fama de haver minas de ouro, e de outros metais na terra da capitania de São Vicente, que el-rei d. João o Terceiro doou a Martim Afonso de Souza, e já por algumas partes voava com asas douradas, e havia mostras de ouro; o que visto pelo governador d. Francisco de Souza, avisou a Sua Majestade oferecendo-se para esta empresa, e ele lha encarregou, e mandou para ficar entretanto governando esta cidade da Bahia a Álvaro de Carvalho; o governador se partiu para baixo no mês de outubro de 1598, levando consigo o desembargador Custódio de Figueiredo, que era um dos que vinham com Francisco Giraldes, e servia de provedor­mor de defuntos e ausentes. O ano seguinte de mil quinhentos noventa e nove, véspera da véspera do Natal, entrou nesta Bahia uma armada de sete naus holandesas, cuja capitania se chamava Jardim de Holanda, por um jardim de ervas e flores, que trazia dentro em si; esta armada se senhoreou do porto, e dos navios, que nele estavam, queimando e desbaratando os que lhe quiseram resistir, como foi um galeão de Bailio de Lessa, que veio fretado por mercadores para levar açúcar; pôs Álvaro de Carvalho a gente por suas estâncias na praia e na cidade para a defenderem se quisessem desembarcar; mas eles não se atrevendo, trataram de concerto, pedindo em reféns uma pessoa equivalente ao seu general, que queria vir pessoalmente a este negócio, e assim foi para a sua capitania em reféns Estevão de BritoFreire, e ele se veio meter no Colégio dos Padres da Companhia, onde o capitão-mor Álvaro de Carvalho o esperava, e se tratou sobre o concerto quatro dias, que ali esteve assaz regalado. Porém fui-lhe respondido no fim deles que puxasse pela carta, porque não podia haver outro concerto, com o que ele se embarcou colérico, e se desembarcou Estevão de Brito; com esta cólera mandou uma caravela, que tinha tomado no porto, e alguns patachos, e lanchas, que fossem pelo recôncavo roubar e assolar quanto pudessem, o que logo fizeram no engenho de Bernardo Pimentel de Almeida, que dista desta cidade quatro léguas, e não achando resistência lhe queimaram casas, e igreja, da qual tiraram até o sino do campanário, mas soou, e logo foram castigados por André Fernandes Morgalho, que Álvaro de Carvalho havia mandado com 300 homens por terra, e achando ainda ali os inimigos brigaram com eles animosamente até os fazerem embarcar, ficando-lhes muitos mortos na briga em terra, e alguns no mar ao embarcar, entre os quais se matou um capitão, que eles muito sentiram. Dali se tornaram às suas naus, donde reformados de mais gente, e munições se foram a ilha dos Frades para tomarem aguada, de que estavam faltos, o qual entendido por André Fernandes, que os tinha em espreita, se embarcou com a sua gente em seis lanchas, e entrando por outro boqueirão, que está entre a ilha de Cururupiba, e a terra firme, e se não navega se não de maré cheia, por não serem sentidos, desembarcaram da outra parte da ilha dos Frades, a tempo que também ali chegavaÁlvaro Rodrigues da Cachoeira com o seu gentio, e assim foram todos juntos, atravessando a ilha pelos matos até perto de uma légua junto a praia, aonde havia saído uma batelada de holandeses a povoar a água, e por acharem salobra se tornaram, e os nossos os deixaram ir, ficando escondidos na cilada, entendendo que iam por mais gente para tornarem a buscar outra fonte, o que eles não fizeram, antes a foram buscar à ilha de Itaparica, e desembarcando em terra puseram fogo em um engenho, que ali estava de Duarte Osquis, sem lhe valer ser também flamengo, posto que casado com portuguesa, e antigo na terra, mas logo chegaram os nossos capitães André FernandesMargalho, e Álvaro Rodrigues, e os cometeram com tanto ânimo, que mataram cinqüenta, e fizeram embarcar os mais, e recolherem-se à sua armada, que também logo se fez à vela, e despejou o porto, que havia cinqüenta e cinco dias tinha ocupado. Ao sair pela barra tomaram uma nau de Francisco de Araújo, que vinha do Rio de Janeiro com sete ou oito mil quintais de pau-brasil, e depois de o descarregar nas suas do pau, e da gente que trazia, a queimaram lançando só em terra umas mulheres, que na nau vinham.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
Referência: .
Acervo: .
Transcrição: .
link principal no BiblioAtlas: Frei Vicente do Salvador - A História do Brazil