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Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 38 - Da entrada, que fez Pero Coelho de Souza da Paraíba com licença do governador a serra de Boapaba

De Atlas Digital da América Lusa

Querendo Pero Coelho de Souza ver se podia recuperar a perda em parte, que com seu cunhado Frutuoso Barbosa recebera na Paraíba, e entendendo que, pois el-rei lha tomara por eles não poderem conquistá-la, podia correr com a conquista de outros rios, e terras adiante, especialmente da serra de Boapaba, que era mais povoada de gentio, pediu licença ao governador geral Diogo Botelho, e havendo-a alcançado mandou três barcos com mantimentos, pólvora, e munições, que o fossem aguardar ao rio de Jaguaribe, e ele se partiu da Paraíba por terra este mesmo ano de seiscentos e três, em o mês de julho, com sessenta e cinco soldados, dos quais os principais eram: Manuel Miranda, Simão Nunes, Martim Soares Moreno, João Cid, João Vaz Tataperica, Pedro Congatan, língua, e mais outro língua francês chamado Tuim Mirim, e com duzentos índios flecheiros, de que eram principais Mandiopuba, Batatão, Caragatim, Tabajaras, e Garaguinguira, Potiguar, caminhando por suas jornadas, chegaram ao rio Jaguaribe, onde acharam os barcos de mantimentos; dali mandou o capitão Pero Coelho um soldado com 70 índios a descobrir campo, os quais tomaram um que andava a comedia, do qual se soube que os seus estavam em arma, e em nenhum modo queriam pazes com os brancos; contudo o contentou o capitão com foices, machados, e facas, com que o mandou que os fosse apaziguar, como foi, e ao dia seguinte tornou em busca de um nosso língua, com quem se entendessem, o qual lhe soube dizer tais coisas, e era gentio tão fácil, e desapropriado, que deixando suas casas e lavouras se vieram com mulheres, e filhos, dizendo que não queriam senão pazes com os brancos cristãos, e acompanhá-los por onde quer que fossem; o mesmo fizeram depois os da outra aldeia, à imitação destoutros, e foram todos marchando até o Ceará, onde depois de alguns dias de descanso por causa da gente miúda, tornaram a marchar até um outeiro, a que depois chamaram dos Cocos, porque uns sete ou oito, que plantaram, à tornada os viram nascidos com muito viço; e dali foram à enseada grande do âmbar, e à mata do pau de cores, que chamam iburá quatiara, depois ao Camoci, que é a barra da serra da Boapaba, para a qual marcharam o seguinte dia, véspera de S. Sebastião, dezenove de janeiro de mil seiscentos e quatro, antemanhã, e clareando o dia foram logo vistos dos inimigos, sem haver mais lugar que para formar dois esquadrões, e a bagagem no meio, e outro esquadram de parte com vinte soldados à ordem de Manuel de Miranda, para dali lançar mangas por onde fosse necessário, 16 soldados na retaguarda, e nove na vanguarda, em companhia do capitão-mor Pero Coelho de Souza; nesta ordem foram recebidos meia légua ao pé da serra com muita flechada, e com sete mosquetes, que disparavam sete franceses, e faziam muito dano, contudo não deixaram de largar o campo com alguns mortos, porque os nossos o fizeram com muito ânimo e esforço, e com duas horas de sol se sitiou o nosso arraial até ao pé da serra, e se fez um reparo de pedras por falta de madeiras, que pelo fogo se não achava, por ser todo escalvado, e menos havia que cozinhar com o fogo, nem água para beber, pelo que começavam já a morrer algumas crianças, e sobretudo vindo à noite tornaram os inimigos do alto a tirar muitas flechadas, e pedradas de fundas, com que feriam os nossos, ralhando que festejavam a sua vinda, porque senão senhores de cativos brancos, e outras coisas desta sorte; mas quis Nosso Senhor que às três horas da noite veio um grande chuveiro de água, com que cessou o das flechas, e pedras dos inimigos, e os nossos aplacaram a sede, e para ser a mercê maior viram em amanhecendo uma gruta donde procedia um ribeiro de água, que os nossos índios cristãos tiveram por milagre, e se puseram todos de joelhos a dar graças a Deus, e o capitão com esta alegria mandou matar um cavalo, que ainda levava, para confortar os soldados, que aos mais era impossível chegar, porque entre grandes e pequenos eram mais de cinco mil almas. Das dez horas por diante começaram os da serra a tocar uma trombeta bastarda, à qual respondeu o nosso francês Tuim Mirim com outra, e pedindo licença ao capitão se foi a um outeiro a falar com os franceses, onde logo desceram três, e depois de se abraçarem, e saudarem, disseram que o principal Diabo Grande queria paz se lhe dessem Manuel de Miranda, e Pero Cangatá, e o petitório era de uns mulatos e mamalucos crioulos da Bahia, maiores diabos que o principal com quem andavam. O Tuim Mirim lhe respondeu que não havia o capitão fazer tal aleivosia, porque lhe seria mal contado de seu rei, com a qual resposta se tornaram, e às duas horas depois do meio-dia desceu todo o gentio da serra, e batalharam até a noite, que se tornaram à sua cerca ao alto, deixando muitos mortos dos seus, e dos nossos dezessete, e alguns feridos. Pela manhã mandou o capitão marchar o exército pela serra acima, indo ele por uma parte com a mais gente, e Manuel Miranda por outra com 25 homens; quando chegaram à cerca seria meio-dia, e logo se começou a batalha cruelmente, por serem os de dentro ajudados por 16 franceses, que com seus mosquetes pelejavam detrás de um parapeito de pedra, mas vendo que os nossos os combatiam por outras partes, e lhes matavam e feriam muita gente, abriram a cerca e fugiram, morrendo somente dois soldados dos nossos, e os outros se recolheram nas casas da cerca, que acharam muito bem providas de mantimentos, carnes, legumes, de que tinham assaz necessidade, porque nem castanhas tinham já, que era o com que até ali se vieram sustentando; ali estiveram 20 dias, e no fim deles foram fazer guerra a outra cerca muito forte, que o Diabo Grande, com ajuda de outro principal mui poderoso chamado o Mel Redondo, fez um quarto de légua destoutra, onde posto que acharam grande resistência, também a ganharam, e puseram o inimigo em fugida até a cerca do Mel Redondo, a que se acolheram por ser fortíssima, com duas redes de madeiros mui grossos, e fortes, uma por dentro, outra por fora, e três guaritas, onde pelejavam os franceses; o que visto pelo capitão Pero Coelho de Souza, mandou fazer uns paveses, que cada um ocupava 20 negros em levar, e indo detrás deles a bagagem, e alguma gente, se chegaram a ajustar com a cerca, e a combateram dois dias, onde nos mataram três soldados brancos, e feriram 14, fora muitos índios; mas enfim foi tomada, e dez franceses, que estavam dentro, que os mais fugiram com o gentio, e os nossos lhe foram no alcance quatro jornadas até um rio chamado Arabé, onde se alojou o nosso arraial, e daí mandou o capitão dar alguns assaltos, e em poucos dias lhe trouxeram muito gentio, e entre os mais um principal chamado Ubaúna, o qual era naquela serra tão estimado, que sabido pelos outros mandaram cometer pazes, com condição que lho dessem, e o capitão lho prometeu, e deu aos embaixadores fouces e machados, com que ao dia seguinte vieram muitos principais já de paz, e levaram o seu querido Ubaúna. Ultimamente daí a três dias veio o Mel Redondo, e o Diabo Grande com todo o gentio, e antes que entrasse no arraial largaram suas armas em sinal de paz, da qual mandou o capitão-mor Pero Coelho fazer um ato por um escrivão, prometendo uns e outros de sempre a conservarem dali em diante. Daqui foram todos juntos ao Punaré, e quis Pero Coelho marchar mais 40 léguas até o Maranhão, o que os soldados não consentiram porque andavam já nus, e sobre isso o quiseram alguns matar; pelo que lhe foi necessário retirar-se ao Ceará, onde deixou Simão Nunes por capitão com 45 soldados, e se veio à Paraíba buscar sua mulher, e família para se tornar a povoar aquelas terras, do que em chegando deu conta ao governador geral Diogo Botelho, e lhe mandou de presente os 10 franceses, e muito gentio, pedindo juntamente ajuda e socorro para prosseguir a conquista, que o governador lhe prometeu mandar, e não mandou por depois ser informado que se cativavam por esta via os índios injustamente, e os traziam a vender, e que seria melhor reduzi-los por via de pregação e doutrina dos padres da companhia, como depois tratou com o seu provincial na Bahia, e nós trataremos outra vez deste sucesso nos capítulos quarenta e dois, e quarenta e três deste livro.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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