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Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 6

De Atlas Digital da América Lusa

Com esta mágoa, e desejo de vingança, que ficou dos Potiguares, no fim de janeiro de mil quinhentos oitenta e cinco se ajuntaram mais que nunca, e fizeram três cercas mui fortes ao longo do forte a tiro de pedreiro, de troncos de palmeiras, que por muito grossos os defendiam da artilharia, e todas as noites as iam chegando, e ganhando terra, do que logo o almirante avisou ao ouvidor-geral, ficando muito receoso que por aquela via com as próprias cercas os viriam abordando, até se abarbarem, e igualarem com o forte, sem se poderem valer da artilharia, nem das mãos, por no forte haver muitas doenças por respeito do mau sítio, fomes, e ruim água, de que muita gente lhe era morta, e assim estava com muito perigo. Aos 8 de fevereiro dobrou com mais força os requerimentos, e encampações de logo despejarem todos; como também por avisos se soube terem já para isto o melhor embarcado em uma nau, que lá tinham; pela qual nova todas as capitanias se meteram em grandes revoltas, e muito mais com se saber esta determinação, e por ter chegado de socorro aos Potiguares o famoso entre o gentio Braço de Peixe, ou por sua língua Pirágiba, de que tratamos em o capítulo vigésimo do livro próximo passado. O ouvidor-geral logo em lhe dando os requerimentos do alcaide os mandou ao capitão d. Filipe, que estava já aliado com Martim Carvalho, ao qual se levaram também outros requerimentos sobre mantimentos, vindo a isso o tenente do forte, a cuja instância todos concordaram, e juntamente o bispo, e oficiais da Câmera requererem ao ouvidor-geral Martim Leitão fosse em pessoa a esta guerra, de que fizeram autos, o que ele, vista a importância do caso, aceitou em 14 de fevereiro com determinação de partir dentro dele no que se começou com incrível presteza em toda a parte, e era coisa notável ver a vontade com que todos se ofereciam a ir com ele; mas contudo, a não haver no porto passante de trinta navios com muitos mantimentos, que nunca tantos houve, nem fora possível aviarem-se com tanta brevidade, suprindo também a grande diligência de Martim Leitão, escrevendo particularmente aos nobres convidando-os com razões eficazes para a jornada, e aviando a muitos; porque no Brasil tudo se compra fiado, e estes nestas coisas querem superabundâncias, a que os mercadores já não acudiam, e era necessário fazê-los prover; e aviar uns, e outros era infinito; fez também duas capitanias para sua guarda, que depois mandou na vanguarda, pela confiança que neles tinha, por ser toda gente solta, e muitos mamalucos, e filhos da terra, porque estes nisto são de muito efeito, e a estas duas companhias deu sempre à sua custa de comer, e tudo o mais necessário, e prover de armas, ainda que nos requerimentos, que lhe fizeram para ele haver de ir, disse o provedor Martim Carvalho que fosse, que ele o proveria à custa da fazenda de Sua Majestade. Além dos dois capitães da guarda, que um era Gaspar Dias de Moraes, que de socorro antes havia ido a Paraíba, e outro mister Hipólito, antigo, e mui prático capitão da terra, se elegeram mais de novo por capitães Ambrósio Fernandes Brandão, e Fernão Soares, que se chamavam capitães de mercadores; foram mais os capitães das companhias da ordenança da terra, Simão Falcão, Jorge Camelo, João Paes, capitão do cabo de Santo Agostinho, muito rico, que o fez nesta jornada por cima de todos, em tudo levando sempre a retaguarda, e João Velho Rego, capitão de Iguaraçu, e todos da ilha de Itamaracá, com seu capitão Pedro Lopes, e porque havia muita, e boa gente de cavalo, que foram cento e noventa e cinco, ordenou três guiões de trinta cavalos cada um dos melhores para acudirem ao cumprisse (sic), de que eram capitães Cristóvão Paes Daltera, Antônio Cavalcante, filho de Filipe Cavalcante, e Baltazar de Barros. Ia mais um filho do capitão Antônio de Carvalho com a sua bandeira por ele ficar doente, que em todas as jornadas o fez muito bem; e era a segunda pessoa deste exército, sobre quem carregava o peso dele, Francisco Barreto, cunhado do ouvidor-geral Martim Leitão, a que chamavam mestre de campo, e ele o pudera ser de outro de muitos milhares de soldados, por seu esforço e destreza. Com tudo este exército, que foi a mais formosa coisa, que nunca Pernambuco viu, nem sei se verá, foi o general Martim Leitão / que assim lhe chamaremos nesta jornada / dormir no campo de Iguaraçu, no meio do qual mandou armar sua tenda de campo, com outras duas pegadas, uma para dois padres da Companhia de Jesus, que com ele iam; e outra de sua despensa, onde se agasalhava também a gente do seu serviço. Aqui mandou deitar grandes bandos, pondo graves penas contra todos aqueles, que brigassem, ou arrancassem, encomendando mui particularmente que houvesse entre todos muita amizade, e conformidade, e outras boas ordens necessárias, que se se cá costumaram no Brasil não houvera tantas perdas, e desconcertos, como sabemos. Ali esteve três dias esperando se ajuntassem alguns, que faltavam; onde fez aposentador, e mais oficiais de campo. Ao quarto dia / que foi o primeiro de março / daquele alojamento foram dormir além do rio Taporema, onde fez resenha, e se achou com quinhentos e tantos homens brancos, e o general deu regimento a todos do que haviam de fazer, repartiu as campanhas, e ordenou que um dos guiões de cavalos aos dias por evitar competências fosse na vanguarda, outro na retaguarda, e o terceiro na batalha, onde ele ia; e o capitão a que no seu dia tocava a retaguarda, tivesse obrigação de uma hora antemanhã com alguns índios correrem, e descobrirem o campo, e assim como toda a ordem possível, e com irem de contínuo alguns homens de confiança com mamalucos e índios por descobridores diante, e pelas ilhargas do exército metidos pelo mato, e gastadores abrindo o caminho, foram por suas jornadas em cinco dias a grande campina da Paraíba, onde pela lembrança de que alguns ali em outras jornadas tinham visto, ia a gente tão apartada, que sendo o caminho da campina largo, e raso, não andavam por mais recados, que se passavam a vanguarda em que naquele dia, por ser de mais importância, ia Francisco Barreto; mas não sofrendo tanto vagar tomou

o general um galope, e foi ver o que era, e achando que haviam já dado em mato, e se detinham os gastadores em abrir caminho com as foices, os fez abreviar, e marchar a vanguarda com presteza e recado, esperando ele ali até se meter em seu lugar. Marchando pois a vanguarda, e o mestre de campo Francisco Barreto com ela, já quase sol posto deu em uma cerca mui grande de gentio, pegada do rio Tibiri, que prometia ter dentro mais de três mil almas, o que não obstante, nem a escuridão da noite, que sobrevinha, nem ser a cerca mui forte, e com uma rede de madeira por fora, como uns leões remeteram, e entraram nela, matando muitos dos inimigos, e pondo os mais em fugida, ficando dos nossos muito pouco feridos, porque foi tal a pressa e açodamento, que lhes não deram vagar, nem tempo para despedirem muitas flechas, o que sentindo o corpo do exército, e retaguarda, rebentavam todos por chegar com os dianteiros à briga, e por mais pressa que se deram, quando já chegaram, era acabada. Entrando pois todo o exército dentro na cerca, que Francisco Barreto lhe tinha ranqueada com a gente da vanguarda, e alojados todos nela, repousaram ali aquela noite, onde acharam farinha feita, e armas, e pólvora, que tinham para ir cercar o forte, conforme os cativos disseram.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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