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Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 8

De Atlas Digital da América Lusa

Logo na tarde que chegaram ao forte ordenou o general que fosse o capitão João Paes com trezentos homens de pé e de cavalo correr a baía da Traição, como foram o seguinte dia em amanhecendo. Procurou também muito com Frutuoso Barbosa quisesse ir duas léguas do forte, junto das marés, onde havia muitos mantimentos da parte do sul do rio da Paraíba, fazer povoação, para o que lhe juntava oitenta homens brancos, e índios os mais que pudesse, e se oferecia estar com ele seis meses, e outros seis seu cunhado Francisco Barreto, mas nunca se pôde acabar com ele, e por atos que disto se fizeram, desistiu de toda a pretensão da Paraíba, dizendo que não estaria mais uma hora nela; contudo determinou o general fazer no dito sítio / que a todos pareceu bem / a povoação, para o que cometeu a Pero Lopes, e a outros, mas não pôde concluir. Pelo que com assaz paixão se determinou ir pela praia com a gente, que lhe ficou, juntar-se na baía da Traição com João Paes; porque assim, levando um campo por cima outro por baixo, não ficando coisa em meio, seguissem por alguns dias os inimigos até os encontrarem, ou enxotarem para longe, mas determinando partir na baixa-mar do outro dia, subitamente aquela noite adoeceram quarenta, e duas pessoas com estranhas dores de barriga e câmaras, entre os quais foi Francisco Barreto, e o padre Simão Tavares, da companhia, e outros de muita importância, com o que houve detença dois dias, e vendo que não melhoravam pelos ruins ares, e águas daquele sítio, foi forçado levantar o arraial, e tomar acima duas léguas em um campo muito formoso e aprazível, sítio de muitas boas águas, a que puseram nome Campo das Hortas, onde em seis dias, que ali estiveram esperando por João Paes, alguns se refizeram; chegado ele, e juntos outra vez todos, e sabido que na baía da Traição não ousaram os inimigos esperar, eles queimaram muitas aldeias, e arrancaram mantimentos, fizeram-se dois ou três conselhos, para se dar ordens no que se devia fazer, e por terem por certo que os Tabajaras, gentio do Braço de Peixe, estavam desavindos com os Potiguares, e começavam a guerrear uns contra outros; se resolveram todos era bem deixá-los, já que por si se queriam gastar antes convir muito por alguma via avisar o Braço de Peixe, que lhe dariam socorro contra os Potiguares, e que não se tornasse à serra; com que em muito segredo o general fez fugido um índio seu parente com grandes promessas, se o quietasse, e fizesse tornar ao mar; com esta ordem, e provido o forte de mais vinte homens, e com lhe deixar o capitão Pero Lopes em lugar de Frutuoso Barbosa, e os prover do seu como melhor pôde, deixando-lhes pipas de farinha, biscoito, vinho, e sardinhas, para dois meses, se partiram todos para a vila de Olinda com muita festa, ainda que o espírito do ouvidor-geral Martim Leitão/ que já chamarei general / não se quietava nem contentava, dizendo não ter feito nada, pois não ficava levantada povoação na Paraíba, e tudo o da guerra concluído, como se fora poderoso para tão grande empresa, em que nosso Senhor o tinha tão favorecido. Desta maneira entraram na vila de Olinda em som de guerra, postos em ordem, acompanhando todos ao ouvidor-geral até sua casa, com a maior festa, e triunfo que Pernambuco nunca teve, que foi a 6 de abril de 1585.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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