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Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 9 - De como o capitão Castejon fugiu, e largou o forte, e o ouvidor-geral o prendeu, e agasalhou os soldados

De Atlas Digital da América Lusa

O primeiro de junho do mesmo ano de oitenta e cinco, chegou nova a Pernambuco era chegado a Itamaracá o capitão Pero Lopes, que o ouvidor-geral Martim Leitão deixara com alguns portugueses no forte da Paraíba em companhia do alcaide, o qual também se dizia o queria desamparar com os espanhóis, e que em secreto buscavam piloto, que de lá os levasse às Índias, e como o ouvidor-geral andava tão pronto, e receoso destas coisas, logo pela posta mandou buscar Pero Lopes, do qual informado, em quatro dias concluiu com ele se tornasse a assistir no forte como o deixava, com alguns filhos da terra, e gente, no qual estivesse até janeiro, com obrigação de lhe darem cada mês cinqüenta cruzados; porque não seria possível deixar el-rei até então de avisar, e prover, por cuja falta se despovoava isto. Dificultosamente aceitou Pero Lopes, porque pela má condição do alcaide Castejon todos fugiam dele; mas sobre isto rebentou outro maior inconveniente, que foi resolver-se o provedor Martim Carvalho / que até então mal provia o forte / em não o querer mais prover bem nem mal, nem nisso entender, e assim o respondeu por atos públicos, com o que ficou tudo desarmado, e se concluíra pior se o ouvidor-geral não tratara este negócio por via de empréstimo, com que logo mandou o capitão Pero Lopes fizesse rol do que havia mister para provimento de 100 homens em seis meses, e feito, e somado em três mil cruzados, os mandou logo tomar, e repartir pelos mercadores, que tinham as coisas necessárias, aos quais se satisfazia com créditos de João Nunes mercador, e tomado navio, e aviado, por não suceder no forte fazer o alcaide com os espanhóis abalo, lhe fez escrever da Câmera com muitos mimos, e certeza de serem agora muito melhor providos; pois havia de correr por eles livres de Martim Carvalho, que muito deviam estimar. O mesmo lhe escreveu o ouvidor-geral, e com estas cartas se foi Pero Lopes aviar a sua casa à ilha de Itamaracá, donde havia o navio, e gente de o ir tomar de caminho, e ele entretanto avisaria o alcaide; e ou o diabo o tecesse ou não sei porque, Pero Lopes não avisou ao forte, nem mandou as cartas, indo disso tão encarregado, e as teve em seu poder sem as mandar desde 8 de junho até 24, que estando tudo a pique para o outro dia partir o navio, e de caminho ir pela ilha, se começou a dizer serem chegados a ela castelhanos do forte; dizendo vinha atrás o alcaide, e deixavam tudo arrasado. A isto / que em breve se encheu a terra / se ajuntou toda a vila às aves-marias em casa do ouvidor-geral, onde se assentou que se juntassem logo pela manhã no colégio; bispo, capitão d. Filipe, Câmera, provedor Martim Carvalho; e ele, que nestas coisas não dormia, na mesma noite despediu os seus oficiais que fossem buscar a Castejon, e lho trouxesse preso a bom recado, como fizeram, e nas perguntas não deu outra razão senão da fome, que era assaz fraca, pois confessava que depois da guerra que havia dado não aparecer mais inimigo, e irem os barcos, que lhe havia deixado, pelo rio acima buscar mantimentos, que era assaz provimento; mas deviam de estar enfadados, e vingaram-se em deitar a artilharia ao mar, e uma nau que lá estava ao fundo, e pôr o fogo ao forte, e quebrar o sino, e com isto se vieram à vila como quem não tinha feito nada; e o que mais é que assim se julgou depois no reino aonde o ouvidor-geral mandou o Castejon preso, que de tudo se livrou e saiu bem. Ao outro dia pela manhã, juntos em modo de conselho no colégio, houve algumas dúvidas com o bispo, e outros, movidos de quão mal se respondia do reino a tanta importância, dificultavam a empresa, que na verdade estava mais duvidosa que nunca, por ser sobre tantas quedas, e lá consumirem tantas vezes os nossos, e se recearem franceses, que nunca ali faltavam. Pelas quais causas diziam que na terra sem grossa mão de el-rei haveria força para esta empresa, só o ouvidor-geral Martim Leitão, todo aceso em cólera, e fervor com que andava, com muitas razões o persuadiu a entre si elegerem um homem, que com cento e cinqüenta, que se ofereceu a buscar, e gentio com a despesa, e vitualha, que estava buscada, tornasse logo a recuperar o perdido, senão que ele com os seus, e amigos que tivesse, estava determinado ir a meter-se no nosso forte arruinado, antes que os inimigos se fortificassem nele, pois os que tinham obrigação de o defender o desampararam, e isto com tanta veemência, requerimentos, protestos, e ameaças da parte de Sua Majestade, que os espertou e aviventou; e assim elegeram o capitão Simão Falcão, que pareceu pessoa para isso, por Frutuoso Barbosa em nenhuma maneira querer aceitar, com estar a tudo presente: do que Simão Falcão foi logo avisado; e o ouvidor-geral com alguns pregões, indústria, e suma diligência juntou todos os espanhóis, que do forte vieram, e ao presente na terra havia, dos quais fez duas esquadras, de quarenta e dois, que ajuntou em umas casas, a que cada dia fazia prover da tação ordinária de sua casa, e à sua custa, não se esquecendo de por via de religiosos fazer encomendar este negócio a Deus.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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