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Livro 5 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Gaspar de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR DIOGO LUIZ DE OLIVEIRA - Capítulo 22 - De como os holandeses tomaram a Bahia

De Atlas Digital da América Lusa

A 21 de dezembro de 1623 partiu de Holanda uma armada de vinte e seis naus grandes, treze do estado, e treze fretadas de mercadores, da qual avisou Sua Majestade ao governador Diogo de Mendonça que se apercebesse na Bahia, e avisasse os capitães das outras capitanias fizessem o mesmo, porque se dizia virem sobre o Brasil. O governador avisou logo a Martim de Sá, capitão­mor do Rio de Janeiro, o qual entrincheirou toda a cidade, concertou a fortaleza da barra, e fez ir os homens do recôncavo para os repartir por suas estâncias, companhias e bandeiras e porque muitos não apareciam, por andarem descalços, e não terem com que lançar librés, ordenou uma companhia de descalços, de que ele quis ser o capitão, e assim ia diante deles nos alardos descalço, e com umas ceroulas de linho, e o seguiam com tanta confiança, e presunção de suas pessoas, que não davam vantagem aos que nas outras companhias militavam ricamente vestidos, e calçados. Sem esta, foram muitas as preparações de guerra, que fez Martim de Sá nesta ocasião. As mesmas fariam nas outras capitanias / que a todas se deu aviso, até o rio da Prata /, mas faço menção do Rio de Janeiro como testemunha de vista, porque ainda então lá estava. Da mesma maneira se apercebeu o governador nesta Bahia, mandando vir toda a gente do recôncavo; e por alguns se não tornassem logo por serem pobres, e não terem que comer na cidade, mandou a um mercador seu privado que desse a cada um desses três vinténs para cada dia, por sua conta; porém como não haja moeda de três vinténs, dizia-lhes que levassem um tostão, e lhes daria uma de oito vinténs, e se os pobres lhe levavam o tostão, lhes dizia que o gastassem primeiro, e depois lhe daria os três vinténs, porque o governador lhos não mandava dar senão aos pobres, que nenhuma coisa tinham, nem lhes aproveitava replicar que haviam pedido o tostão emprestado, e que não era seu, nem outra alguma razão que dessem. Não se passaram muitos dias, quando vieram ao governador novas de Baepeba, que andava lá uma nau grande, a qual tomara um navio, que vinha de Angola com negros. Quis sair ou mandar a ela, cuidando que não seria da armada, porque passava de quatro meses era partida de Holanda, e se entendia haveria aportado em outra parte: e esta era a nau Holanda, em que vinha o coronel para governar a terra, chamado d. João Vandort, a qual não pôde tomar a ilha de S. Vicente, que é uma das de Cabo Verde, onde as outras naus se detiveram dez semanas a tomar água, e carnes, e levantar oito chalupas, que traziam em peças; e por esta causa chegou primeiro a esta costa, e andava aos bordos dos Ilhéus para o morro, esperando as mais para entrar com elas, o que não fez, porque não as viu quando entraram, que foi a 9 de maio da era de 1624; mas vistas pelo governador Diogo de Mendonça repartiu logo as estâncias pelos capitães, e gente das freguesias de fora, que ainda aqui estavam, e da cidade; e deixando a companhia de. seu filho, que era de soldados pagos, e recebiam soldo da fazenda de el-rei, para acudir, aonde fosse necessário, mandou a outra companhia com seu capitão Gonçalo Bezerra ao porto da Vila Velha, que é meia légua da cidade; e o escrivão da Câmera Rui Carvalho com mais de cem arcabuzeiros do povo, além de sessenta índios flecheiros de Afonso Rodrigues, da Cachoeira, que os capitaneava. Fez a Lourenço de Brito capitão dos aventureiros, e a Vasco Carneiro encomendou a fortaleza nova, da qual posto que não acabada jogava já alguma artilharia. Não trato das outras estâncias, porque só nestas duas partes desembarcaram os holandeses aquela mesma tarde. Os do porto da Vila Velha estavam com os seus arcabuzes feitos detrás do mato, para os dispararem ao desembarcar dos batéis; porém vendo ser muito maior o número dos inimigos não os quiseram esperar, quis detê-los Francisco de Barros na Vila Velha animando-os, ainda que velho e aleijado, mas iam tão resolutos, que nem bastou esta adamoestação, nem outra que lhe fez o padre Jerônimo Peixoto, pregador da companhia, o qual os foi esperar a cavalo, dizendo-lhes porque fugiam, pois tinham por todo aquele caminho de uma parte e de outra matos donde se podiam embrenhar, e a seu salvo fazer a sua batalha sem os inimigos saberem donde lhes vinham. Nada disto bastou para tirar-lhes o medo, que traziam, antes como mal contagioso o vieram pegar aos da cidade, ou lho tinham já pegado os primeiros núncios, pois de quanta gente estava nela não houve outro socorro que saísse senão um padre pregador, que então pregava em deserto, e todavia se fora um socorro, que lançaram duas mangas de gente por entre o mato, e rebentaram das encruzilhadas, que há no caminho, ainda que os holandeses eram mil e duzentos, não lhes deixaram de fazer muito dano. Melhor o fizeram os da fortaleza nova, a qual o almirante Petre Petrijans (sic), ou como os portugueses lhe chamamos Pero Peres, com o resto da sua soldadesca valorosamente combateu, e não com menos valor, e ânimo lha defendeu Vasco Carneiro, e Antônio de Mendonça, que o ajudou com mui poucos dos seus soldados, que já os mais lhe haviam fugido; também os socorreu com muito ânimo Lourenço de Brito, capitão dos aventureiros, porém como eram muitos os holandeses, e o forte não estava acabado, nem com os reparos necessários, foi forçado largar-lho, estando já Lourenço de Brito ferido, e treze homens mortos, sendo dos últimos que se saiu o nosso irmão frei Gaspar do Salvador, que os esteve exortando, e confessando, e quando se abaixou para entender o que lhe dizia um castelhano, a quem um pelouro havia levado uma perna, o livrou Deus de outro, que lhe passou por cima da cabeça, havendo-lhe já outro levado um pedaço de túnica: e os holandeses por ser já noite, e se temerem que os rebatessem da parte de terra se contentaram só com cravar as peças de artilharia, e o deixaram, tornando-se para as suas naus, não deixando delas de dia nem de noite de esbombardear para a cidade, e para toda a praia, na qual mataram a Pero Garcia no seu balcão, onde se pôs com seus criados, e chegando o governador a perguntar-lhe como estava / porque andava ele naquele (sic) doente / lhe respondeu “Senhor, já estou bom, que neste tempo os enfermos saram, e tiram forças da fraqueza”, ânimo por certo, a que os próprios inimigos deveram ter respeito, e assim depois que o souberam, mostraram pesar, pondo a culpa à diabólica arma do fogo, que aos mais valentes mata primeiro, e como raio onde mais fortaleza acha faz mais dano. O pelouro lhe deu pelas queixadas, e ainda lhe deu lugar a se confessar, e de se reconciliar com alguns seus inimigos, que ali se acharam. um dos quais era Henrique Álvares, a quem também outro pelouro matou pouco depois. Os mais que haviam desembarcado na Vila Velha se alojaram aquela noite em S. Bento, para combaterem no dia seguinte a cidade, na qual o governador determinou de se defender, mas como se não pôs em um cavalo correndo, e discorrendo por toda a cidade que não lhe fugisse a gente, todos se foram saindo: o que não podia ser sem que os capitães das portas, e mais saídas da cidade fossem os primeiros; e o bispo, que aquele dia se fez amigo com o governador, e se lhe foi oferecer com uma companhia de clérigos, e seus criados, pedindo estância onde estivesse, e a quem o governador agradecendo-lhe muito o oferecimento disse que em nenhuma parte podia estar melhor que na sua Sé, também a desamparou, consumindo o Santíssimo Sacramento, e deixando a prata e ornamentos, e tudo o mais, o mesmo fizeram clérigos e frades e seculares, que só trataram de livrar as pessoas, e algumas coisas manuais, deixando as casas com o mais, que tinham adquirido em muitos anos: tanto pôde o receio de perder a vida, e enfim se perde tarde ou cedo, e às vezes em ocasião de menos honra.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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