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Livro 5 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Gaspar de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR DIOGO LUIZ DE OLIVEIRA - Capítulo 26 - Dos assaltos, que se deram enquanto governou o bispo

De Atlas Digital da América Lusa

Ordenadas as coisas pelo bispo, na maneira que fica dito, sabendo os capitães Francisco de Padilha, e Jorge de Aguiar, que os holandeses faziam poste na casa de Cristóvão Vieira, escrivão dos agravos, a qual está um pouco mais de um tiro de pedra fora do muro, e porta da cidade, entraram nela uma noite com mais dez companheiros, e à espada mataram quatro holandeses, pelo que depois derribaram e puseram fogo à casa, e a todas as mais que havia nos arrebaldes, e roçaram os matos, que lhe podiam ser impedimento, e aos portugueses abrigo, mas sobre este roçar de matos, e derribar casas houve alguns encontros, em que os capitães Lourenço de Brito, e Antônio Machado com a sua gente mataram uma vez quatro, e por outra o mesmo Lourenço de Brito, e Luiz de Siqueira mataram muitos, e aqui testificou o capitão Lourenço de Brito do negro Bastião, de que atrás fizemos menção, que se adiantou a todos dizendo, que a sua flecha não chegava tão longe como o pelouro dos arcabuzes, e assim lhe era necessário para empregá-la nos inimigos chegar-se mais perto deles, o que também fez em outros encontros, e uma vez andando já com eles à espada, dizendo-lhes os nossos negros que se retirasse, respondeu «Não retira, não, sipanta, sipanta,» querendo nisto dizer que não era tempo de retirar quando andavam já à espada; porque tinha experimentado dos holandeses que não eram tão destros nesta arma, como nas de fogo, e assim vindo à espada tinha já o pleito por vencido; outros holandeses foram até a casa de Jorge de Magalhães, que dista mais de uma légua da cidade, queimando as que havia pelo caminho, e roubando quanto achavam; porque os moradores se saíam fugindo para os matos, e a uma mulher, que não pôde fugir, quiseram romper as orelhas para lhe tirarem os cercilhos, e pendentes de ouro, se ela não lhos dera, e ainda fizeram outras coisas piores se não acudira Francisco de Padilha com a sua gente, o qual matou quatro, e foi seguindo os mais, que lhe fugiram até o Rio Vermelho; outra vez foram muitos ao pomar de Diogo Sodré, que se chama da vigia, porque dali a fazem aos navios que aparecem na costa, e se dá aviso na cidade antes que entrem na barra, e levaram muitos negros consigo dos seus confederados para carregarem de laranjas, limas doces, limões, e cidras, que há ali muitas, mas saíram-lhe os capitães Antônio Machado, e Antônio de Moraes com 50 homens cada um, e depois de batalharem animosamente, e lhes matarem nove holandeses, todavia se retiraram com dois portugueses mortos, e alguns feridos; mas a este tempo acudiu o capitão Padilha com 20 soldados seus, e indo após eles, que já se iam para a cidade, lhe fizeram rosto, e se tornou a travar outra batalha, a que tornaram os dois primeiros capitães, que se haviam retirado, e os foram levando até terem vista do socorro, que ia aos holandeses, que então os deixaram, por não terem mais pólvora, nem munição, mas ainda nesta segunda batalha lhe mataram muitos mais, e cativaram um vivo, chamado Rodrigo Mateus, que levaram ao bispo. Não se haviam com menos ânimo e esforço Manuel Gonçalves, e os mais capitães, que ficavam da banda do Carmo, vigiando continuadamente se saíam para aquela parte alguns holandeses, e assim junto ao mesmo mosteiro do Carmo mataram uma vez seis, e outra três; e saindo do forte de S. Filipe a pescar a umas camboas, que ficam perto, deram sobre eles, e os pescaram, antes que eles pescassem; mataram um, e cativando três, que levaram ao bispo, dos quais um era o cabo do forte; e vendo os holandeses que os nossos se ajudavam por estes assaltos, de umas casas que ali estavam, onde no tempo da paz morava o capitão do forte com sua família, foram uma manhã cinco com picões para derribá-las, mas Manuel Gonçalves, Jorge de Aguiar, e Pero do Campo, que já estavam esperando emboscados no mato, tanto que os viram subidos para destelharem a casa, saíram com os seus, mataram dois, e seguindo os outros até a porta da fortaleza, e sem falta a entraram daquela vez, se na mesma porta não pusessem os de dentro uma peça de artilharia, que dispararam com muita munição miúda, e os fizeram tornar. Outra vez havendo-lhe um negro do capitão Pero de Campo tomado o batel do pé do forte, e levado aos nossos, sem embargo de muitas peças, que lhe atiraram sem lhe acertar alguma, entendendo o dito capitão Manuel Gonçalves que pois não tinham batel iriam por terra dar aviso a cidade do que passava, os foi esperar ao caminho, e vendo que iam dois em uma jangada mandou a eles a nado, mas não os tomaram, porque lhes acudiu uma lancha sua, que ia da cidade.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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