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Livro 5 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Gaspar de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR DIOGO LUIZ DE OLIVEIRA - Capítulo 2 - De como mandou o governador a Jerônimo de Albuquerque a conquistar o Maranhão

De Atlas Digital da América Lusa

Eleito Jerônimo de Albuquerque por capitão-mor da conquista do Maranhão, como temos dito, se foi logo às aldeias do nosso gentio pacífico, e por lhes saber falar bem a língua, e o modo com que se levam, ajuntou quantos quis: um contarei só do que houve em uma aldeia, para que se veja a facilidade com que se leva este gentio de quem os entende e conhece, e foi que pôs a uma parte bom feixe de arcos, e flechas, a outra outro de rocas, e fusos, e mostrando-lhos lhes disse: “Sobrinhos, eu vou à guerra, estas são as armas dos homens esforçados e valentes, que me hão de seguir; estas das mulheres fracas, e que hão de ficar em casa fiando; agora quero ouvir quem é homem, ou mulher”. As palavras não eram ditas, quando se começaram todos a desempunhar, e pegar dos arcos, e flechas, dizendo que eram homens, e que partissem logo para a guerra; ele os quietou, escolhendo os que havia de levar, e que fizessem mais flechas, e fossem esperar a armada ao Rio Grande, onde de passagem os iria tomar. Não ajuntou com tanta facilidade o governador os soldados brancos que queria mandar, porque exceto alguns, que por sua vontade se ofereceram a ir, os mais nem com prisões podiam ser trazidos, porque como os traziam de longe, e por matos dos engenhos e fazendas de noite, fugiam, e de 10 não chegavam quatro; porém caiu em uma traça mui boa, que foi obrigar aos homens ricos, e afazendados, que tinham mais de um filho, que dessem outro, com o que lhe sobejou gente; porque nenhum homem destes mandou seu filho, sem ao menos mandar com eles um criado branco, e dois negros. Também pediu dois religiosos da nossa ordem, e o prelado lhe deu o irmão frei Cosme de S. Damião, varão prudente, e observantíssimo da sua regra, e frei Manuel da Piedade, mui perito na língua do Brasil, e respeitado dos índios Potiguares, e Tabajaras, assim por seu pai João Tavares, como por seu irmão frei Bernardino das Neves, dos quais temos tratado no livro precedente e porque a guerra não havia de ser só contra os índios, senão também contra franceses, que estavam com a fortaleza feita, e já prevenidos, deu o governador a Jerônimo de Albuquerque por companheiro o sargento-mor do estado Diogo de Campos Moreno, soldado experimentado nas guerras de França, e Flandres, e que sabia bem formar um campo, e os ardis e tretas da peleja. Feito isto se embarcaram todos dia de S. Bartolomeu, 24 de agosto da era de 1614 anos, em uma caravela, dois patachos e cinco caravelões; na caravela ia o capitão-mor, e seu filho Antônio de Albuquerque por capitão de uma companhia de 50 arcabuzeiros, de que era alferes Cristóvão Vaz Moniz, e sargento João Gonçalves Baracho; em um dos patachos ia o sargento-mor do estado Diogo de Campos Moreno com 40 homens, no outro o capitão Gregório Fragoso de Albuquerque, que ia por almirante, com 50 soldados também arcabuzeiros, e seu alferes Conrado Lino, e sargento Francisco de Navaes. Dos caravelões eram capitães Martim Callado com 25 homens, o sargento de Antônio de Albuquerque com 12, Luis Machado com 15, Luis de Andrade com 12, e Manuel Vaz de Oliveira com outros 12, e além desta gente branca, iam mais 200 índios de peleja, que Jerônimo de Albuquerque tinha escolhido nas aldeias da Paraíba, e o estavam esperando no Rio Grande os mais deles com suas mulheres e famílias, onde os foi tomar, e os repartiu pelas embarcações, lhe requereram os religiosos mandasse ficar as índias, que iam sem maridos, e algumas outras, que já de Pernambuco iam amancebadas, e assim se fez. Dali foram ao Buraco das Tartarugas, onde havia deixado o presídio, no qual se havia já provado a mão com os franceses, que ali foram aportar na nau regente, e desembarcaram duzentos com o seu capitão às duas horas da tarde, onde lhes saíram o capitão Manuel de Souza e Sá com 18 arcabuzeiros, e matando-lhes alguns os fez embarcar, ficando também dos nosso um morto, e seis feridos, e deu por causa o monsieur a quem lhe perguntou porque se retirava, que viram muita gente na trincheira donde os nossos saíram, e temera que vindo de socorro lhes não poderiam escapar, não tendo por possível que tão poucos homens houvessem cometido a tantos, senão com as costas quentes (como diziam), e confiados nos muitos que atrás eles saíram, e os muitos eram vinte soldados, que haviam ficado por não terem pólvora, e munição, e se assomavam por cima da trincheira a ver de palanque a briga, que na praia se fazia, mas melhor causa dera se dissera que o quis assim Deus; e foi esta vitória como um presságio da que havia de conseguir no Maranhão, para onde se embarcou também Manuel de Sousa com os seus soldados, e Jerônimo de Albuquerque o fez capitão da vanguarda de todo o exército.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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