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Livro 5 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Gaspar de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR DIOGO LUIZ DE OLIVEIRA - Capítulo 43

De Atlas Digital da América Lusa

No primeiro de maio da dita era, dia dos bem-aventurados Apóstolos S. Filipe e Santiago, se abriram as portas da cidade, e entrando por elas o nosso exército bem ordenado, se puseram logo postas nas partes que era necessário. E os holandeses / que ainda eram mil novecentos e dezenove / se recolheram nas casas da praia com boa guarda de soldadas espanhóis; e depois nas suas naus, com encargo de as concertarem, e calafetarem os seus carpinteiros e calafates. Também foram logo presos os portugueses, que se ficaram com eles, e se lhes fez inventário da sua fazenda, como também se fez de toda a que foi achada em poder dos holandeses, e das mais coisas que entregaram, que foram 600 negros, uns fugidos de seus senhores para o inimigo com amor da liberdade, outras de presas que tomaram em navios, que vinham de Angola. Entregaram mais seis navios e duas lanchas, porque ainda que quando entrou a nossa armada na Bahia tinham 21, já as outras eram queimados, ou metidos no fundo. Item — entregaram 16 bandeiras de companhias, e o estandarte, que estava na torre da Sé: 216 peças de artilharia, 40 de bronze, e as mais de ferro. E 35 pedreiros, 500 quintais de pólvora embarrilados: balas, bombas, granadas, e outros artifícios de fogo em abundância, 1.578 mosquetes, 133 escopetas, e arcabuzes, grande quantidade de cobre em pasta; 870 morriões; 84 peitos fortes, grande número de outros, e espaldares; 21 quintal de morrão; e todas as fazendas, que haviam tomadas, assim das lojas dos mercadores, e casas da cidade, como de navios, e muitas que trouxeram de sua terra, as mais das quais tinham metidas no colégio dos Padres da Companhia, onde os mercadores moravam, para as venderem quando achassem compradores, e se o Colégio lhe servia de loja de mercancias, e morada de mercadores, a igreja lhes servia de adega. E depois que os vinhos se acabaram, de enfermaria. Da mesma maneira estavam profanadas todas as outras igrejas da cidade, porque a do nosso seráfico padre servia de armazém de pólvora e armas, e no dormitório morava um capitão, e companhia de soldados. A ermida de Nossa Senhora da Ajuda era outro armazém de pólvora. A Misericórdia também era sua enfermaria: e só na Sé pregavam, e enterravam os capitães defuntos, que para os mais fizeram cemitério do Rocio, que fica defronte dos padres da companhia. E assim não houve outra igreja, que fosse necessária desviolar-se senão a Sé, causa que as hereges sentiram muito, ver que desenterraram dois seus coronéis, e outros capitães, que ali estavam enterrados, e chamaram alguns para que mostrassem as sepulturas, e os levassem a enterrar ao campo, para se haver de celebrar a primeira missa in gratiarum actianem, a qual cantou solenemente o vigário­geral do bispado do Brasil, o cônego Francisco Gonçalves, aos cinco dias do mês de maio. Foram diácono e subdiácono dois clérigos castelhanos capelães da armada. Pregou o padre frei Gaspar da sagrada Ordem das Pregadores, que d. Afonso de Noronha trazia por seu confessor. Nela se ajuntaram os generais da empresa com todas os fidalgos, que nela se acharam de Portugal e Castela. Depois se fez o mesmo nas outras igrejas, pela mercê da vitória alcançada, e se fizeram ofícios pelos católicos que nela morreram. Aqui confesso eu minha insuficiência para poder relatar os júbilos, a consolação, a alegria, que todos sentíamos em ver que nos púlpitos, onde se haviam pregado heresias, se tornava a pregar a verdade de nossa fé católica, e nos altares, donde se haviam tirado ignominiosamente as imagens dos santos, as víamos já com reverência restituídas, e sobretudo víamos já o nosso Deus no Santíssimo Sacramento do altar, do qual estávamos havia um ano privados, servindo-nos as lágrimas de pão de dia, e de noite, como a David quando lhe diziam os inimigos cada dia “Onde esta o teu Deus”? E depois de lhe darmos por isto as graças, as dávamos também ao nosso católico rei por haver sido por meio de suas armas o instrumento deste bem. E daqui entendo eu que se o seu reino de Espanha se pinta em figura de uma donzela mui formosa com a espada em uma mão, e espigas de trigo na outra, não é só para denotar sua fortaleza, e fertilidade, mas para significar como pelas armas de seus exércitos se goza este divino trigo em todo o mundo. O aviso deste sucesso venturoso se encarregou por particular a d. Henrique de Alagon, que no assalto que os holandeses deram a São Bento, foi ferido de dois pelouros, a quem acompanhou o capitão d. Pedro Gomes de Porrez, do hábito de Calatrava, no patacho de que era capitão Martim de Lano. O treslado da carta, que levou de d. Fadrique para Sua Majestade é o seguinte. “Senhor: eu hei trazido a meu cargo as armas de Vossa Majestade a esta província do Brasil, e nosso Senhor há vencido com elas, se hei acertado a servir a Vossa Majestade, com isto estou sobejamente premiado. As ocupações de dar cobro a cidade restituir a Nosso Senhor seus templos, tratar dos negócios da justiça, que Vossa Majestade me encarregou, e castigo dos culpados, carena de algumas naus, bastimento para a armada, em que há bem que fazer: aviamento, e despacho dos rendidos, que hão de tornar a sua terra, e o deste aviso, e outras mil coisas me tem sem hora de tempo: o que faltar na relação emendarei no segundo aviso. d. João Fajardo há servido a Vossa Majestade melhor que eu, porque há assistido no apresto do que há desembarcado do mar com grande cuidado, que não há sido menos essencial que o das armas; também esteve na segunda bateria, que se fez aos navios, e em tudo há procurado servir a Vossa Majestade, e ajudar-me como pessoa de tantas obrigações.” “O mesmo há feito d. Manuel de Menezes. O marquês de Cropani há trabalhado, ainda que velho, como moço, com o fervor, e zelo que outras vezes, dando a Vossa Majestade obrigação de fazer-lhe mercê, e honra, e a mim de suplicá-lo a Vossa Majestade, etc.” E assim prosseguiu depois em outras o louvor de todos em geral com a liberalidade, que é mui própria na nobreza castelhana. Foi feita a dita carta a doze de maio, e chegou brevemente a Madri, onde Sua Majestade fez dar solenemente as graças a Nossa Senhor pela mercê recebida, sobre outras mui grandes, que este ano de mil seiscentos e vinte e cinco recebeu, como foi livrar-lhe Cadiz de uma poderosa armada de 130 navios ingleses, da qual livrou também milagrosamente a frota de Índias, que aquele ano trazia 17 milhões em ouro, prata e frutos da terra. E o milagre foi que tanta que os ingleses aportaram em Cadiz, mandou S. Majestade despachar seis caravelas com grandes prêmios a frota para que fosse aportar a Lisboa ou Galiza, por não ser presa dos inimigos; caiu uma das caravelas nas mãos dos ingleses, os quais, tenda por certo que esperando a frota em quarenta graus se fariam senhores dela, partiram logo de Cadiz a pôr-se naquela altura, mas foi Deus servido que nenhuma caravela das nossas acertou com a frota, e assim veio direita a Cadiz, vinte dias depois da inglesa a estar esperando na paragem por onde houvera de vir se lhe deram o recado de Sua Majestade. Nem aqui parou a sua desgraça, e ventura nossa, senão que a sua armada se perdeu depois com tempestades, e tormentas, de sorte que a menor parte dela tornou a sua terra. Em Flandres foi tomada aos hereges a poderosa cidade de Breda. E no Brasil / coma temos dito / recuperada de outros a Bahia, que o ano dantes a tinham ocupada. Bem parece que foi aquele bissexto e estoutro de Jubileu, em que o vigário de Cristo em Roma tão liberalmente abre, e comunica aos fiéis o tesouro da igreja, para que confessando-se sejam absolutos de culpas, e censuras, que são muitas vezes as que impedem as mercês e benefícios divinos, e nos acarretam os castigos. E principalmente se pode atribuir a felicidade deste ano a Espanha, em ser nele celebrada a canonização de Santa Isabel, rainha de Portugal, e natural do reino de Aragão, por cuja intercessão e merecimentos podemos crer que fez, e fará Deus muitas mercês a estes reinos. NB. Este capítulo foi copiado das emendas a esta História do Brasil.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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