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Livro 5 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Gaspar de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR DIOGO LUIZ DE OLIVEIRA - Capítulo 44.2 - Da armada, que veio de Holanda a Bahia em socorro dos seus, e do mais, que sucedeu até a partida da nossa

De Atlas Digital da América Lusa

Não se podia dizer que a guerra era acabada, por se haver recuperada a cidade dos holandeses, pois ainda se esperava pela sua armada do socorro. E assim chegou logo um navio de Angola, que deu por nova andar no morro uma nau, e um patacho, que tinham tomado dois navios nossos, um de mantimentos para a armada de Portugal, que vinha de Lisboa, outro da ilha da Madeira, com vinhos, que também se mandava à armada, e ao conde de Vimioso da sua capitania de Machico; saiu-lhes Tristão de Mendonça, e o capitão Gregório Soares, por mandado do seu general d. Manuel de Menezes, e tomaram o dos mantimentos com os holandeses, que dentro estavam. Também mandou d. João Fajardo um patacho, que tomou o dos vinhos, e dos holandeses, que tomaram destes dois navios, constou que vinha já a sua armada do socorro, a qual poucos dias depois, aos 26 de maio pela manhã, apareceu na barra; eram 34 naus, 15 grandes do estado, e as mais de frete, e assim eram duas capitanias. Às duas horas depois do meio-dia entraram todas enfiadas umas traz outras para dentro com tanta confiança que provavelmente se entendeu deviam ainda cuidar que estava a cidade por sua, e que fora bom o conselho, que o marquês de Coprani havia dado, que se não abalasse a nossa armada, porque eles viriam surgir junto dela, acrescentando que seria bom tirar-se a bandeira real, que haviam posto na torre da Sé, e pôr em seu lugar a holandesa, que haviam tirado, e dispararem da nossa armada alguns tiros à cidade, e da cidade à armada, para que se confirmassem os holandeses no que cuidavam, e lhes viessem a cair nas mãos: porém d. Fadrique respondeu o que referem de Alexandre Magno que não era honra alcançar vitória com enganos, e mandou sair os navios mais pequenos logo pela manhã com ordem que não pelejassem, até não chegarem as capitânias, as quais se desamarraram tão tarde, que havendo ido os primeiros em vento e maré favorável, acharam já tudo contrário, o dia que se ia acabando, e os inimigos retirando-se, pelo que mandou tirar um tiro de recolher, e também por ver que havia um galeão nosso, chamado Santa Tereza, dado em seco nos baixos da parte da Itaparica, o qual cortando-lhe o mastro grande, nadou, e saiu do perigo. E os holandeses, posto que alguns tocaram o baixo, saíram, e se foram todos a seu salvo aquela noite na volta do mar, sem perderem mais que dois batéis, que se desamarraram, ou largaram por mão, e uma bandeira que a almeiranta de Nápoles levou com um pelouro a um deles da quadra: onde se perdeu a mais gloriosa empresa, que se podia ganhar, com a qual, junta a que haviam alcançado na cidade, se ficavam quebrando os braços aos inimigos, para nos não poderem tão cedo fazer dano, mas parece que os quis Deus deixar ainda no Brasil / como deixou os cananeus aos filhos de Israel / para freio de nossos pecados; e assim se foram logo desta Bahia à da Traição, do que sendo avisado d. Fadrique por via de Pernambuco, mandou à pressa aprestar a armada para ver se de caminho, em caso que ainda aí estivessem, os podia levar. E para este efeito mandou que João Vincêncio Sanfeliche, de quem se valia nas coisas de mais consideração, e o general Francisco de Vallecilha, como tão experimentado na náutica, se adiantasse a Pernambuco com instrução que em companhia do governador Mathias de Albuquerque, e das pessoas mais práticas o informasse do sítio da baía da Traição, suas particularidades, e capacidade, para ver se achando-se a armada inimiga nela, poderia entrar a de Espanha a desalojá-la, e não podendo, que conviria fazer em resolução de não perder tempo quando chegasse a Pernambuco, senão que pudesse executar o que tivessem determinado, pelo que fez logo o governador juntar todos os pilotos em sua casa, e com seu parecer assentaram que na boca da dita baía não havia mais que 15 ou 16 palmos de água, com que era impossível entrar a armada de Espanha, além de que a parte que tinha mais fundo estava ocupada com os navios de Holanda; e assim o melhor seria surgir a nossa armada defronte da barra, e saltearem os inimigos por terra até os forçar a sair; e para isto haviam prevenido cem juntas de bois, e carros para tirar a artilharia, mil índios da Paraíba, e mil homens brancos de Pernambuco, que com os mais, que d. Fadrique mandaria desembarcar dos seus, seria bastante para conseguir seu intento, o qual por esta causa deu conclusão às coisas da Bahia. Mandou enforcar dos portugueses, que estavam presos por voluntariamente se haverem ficado com os holandeses, quatro, e dos negros, que se confederaram com eles, seis, sendo primeiro uns e outros ouvidos, e julgados pelo auditor-geral. Repartiu os despojos das mercadorias, e fazendas, que os holandeses haviam tomado aos moradores, pelos soldados da armada. Donde trouxe um pregador, pregando naquela ocasião muito a propósito aquilo do primeiro capítulo do profeta Joel / Residuum erucae comedit locusta/, porque o que haviam deixado os inimigos lhes levaram os amigos, que vieram para os socorrer, e remediar. E se ainda destes restou alguma coisa / residuum locustae comedit bruchus /, que foi o presídio de mil soldados, que o dito general deixou da armada na cidade, no qual deixou por sargento-mor Pedro Correa, que o havia sido de um dos terços de Portugal, soldado velho, experimentado nas guerras de Flandres. Fez capitães da infantaria a Francisco Padilha, Manuel Gonçalves, Antônio de Moraes, e Pero Mendes, que o haviam sido dos assaltos, e capitão-mor e governador da terra a d. Francisco de Moura, que já de antes o era. Despediu-se dos conventos dando a cada um de esmola 200 cruzados para ajuda de repararem as paredes, que como serviram de baluartes e trincheiras, ficaram mui danificados. E com isto pedindo que lhe encomendassem a Nosso Senhor a viagem, se embarcou a vinte e cinco de julho, dia do bem-aventurado Apóstolo Santiago, patrão de Espanha, posto que pelo vento ser contrário, não pôde sair da barra senão a quatro de agosto, no qual tempo o tiveram três dos navios, em que iam embarcados os holandeses rendidos, para se apartarem dos mais, e se irem. NB. Segue-se o capítulo quadragésimo quinto do sucesso da nossa armada para o reino, e dos holandeses para a sua terra; porém nas adições e emendas a esta História do Brasil é o quadragésimo sétimo.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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