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PARECER DO FREI MANOEL BORGES, COMISSÁRIO GERAL DOS MERCEDÁRIOS E MEMBRO DA JUNTA DAS MISSÕES

De Atlas Digital da América Lusa

Autos da Devassa contra os Índios Mura


Senhor,

Vi a devassa que por requerimento, e certidão do padre José de Souza, provincial das missões da Companhia de Jesus deste Estado. Se tirou, contra o gentio dos rios da Madeira e Tocantins, por dizerem faziam mortes e insultos, impedindo as negociações daquelas terras; e me parece dizer a Vossa Majestade, pelo parecer que si me pede; que a devassa não culpa ao gentio destes dois rios com crimes porque haja de se lhe dar guerra ofensiva, nem defensiva: 1º porque muitas das testemunhas que juram, nunca foram ao sertão, e a maior parte delas juram que ou viram, e somente os queixosos que não passam de três, é que publicam o mal que receberam, porém não declaram a causa que deram, que é certo o gentio não comete a ninguém, mas somente se defendem quando lhes vão assaltar as aldeias, que é o que costumam fazer os cabos das canoas, quando passam ao sertão. 2º afirmam que os que vão a colheita do cacau não passam das beiras do rio da Madeira, tendo no centro daqueles matos os maiores haveres: estes me parecem são próprios dos nacionais daquelas terra de que não devem ser espoliados contra sua vontade, senão nos casos que as leis ordenam; e como eles ainda não cometeram os crimes, por defenderem as suas terras, como podem ser castigados! 3º afirmam que é nação Mura a que tem feito estas insolências nunca vistas: se esta nação é de corso, e não tem parte certa, como afirmam todos, donde se lhe poderá dar concerto! Certamente se iram escalando as nações inocentes, como tem sucedido muitas vezes, ainda constando dos sítios certas desculpas, que não vão os cabos de guerra mais que escalarem os sertões, cativar o gentio forro, liberto e com título de guerra trazem os que nunca a fizeram: esta dependência há muitos anos trazem os padres da Companhia e já muito tempo há se lhe respondeu a este requerimento, que não era justo que à custa da Real Fazenda, se lhes limpassem os sertões para as suas conveniências: estas são dos ditos padres somente porque são os que para os seus negócios, mas se entranham por aqueles desertos, e bem se vê, que os ofendidos do gentio, são os cabos das suas canoas, e não outros; e como missionário daquela missão se queixa da inquietação em que vive, e diz, há sítio para duas, ou três missões, sou de parecer que em lugar da guerra que requerem, e o gentio não merece, se lhe ponham lá as tropas todas que forem a fazer resgate, porque sem despesa da Real Fazenda, nem prejuízo da consciência, poderão conseguir dois fins muito certos e úteis: o primeiro defender a missão, que com temor da tropa, nenhum gentio se lhe há de atrever. Segundo que com os resgates que fizerem, se irá precisamente diminuindo o gentio, assim como sucede no rio Negro, que sendo tanto, e inquietando muito mais as missões dos religiosos do Carmo, quando que se lhe sentiram tropas de resgates, se aquietaram de sorte, e estão tão poucos, que sucede irem as bandeiras três meses pelo rio acima, já até as suas cabeceiras, sem acharem que resgatar; tomando-se este expediente ficará tudo tão sossegado, que os mesmos padres que agora pedem guerra, serão os mesmos que em pouco tempo supliquem se lhe tira da vizinhança a tropa, e confessarão estar tudo já quieto e não haver mais gentio algum; como tem sucedido em outras ocasiões, e já com este mesmo padre provincial sucedeu, que sendo missionário, e pedindo guerra contra um facinoroso principal chama Ajuricaba, em pouco tempo pediu se lhe dessem prêmios, porque era um leal vassalo, e ainda este peditório não estava acabado, quando chegou outro pedindo outra vez guerra, por cuja variedade, perdem o crédito as suas propostas, e se colige com certeza, que os seus requerimentos são conforme as dependências em que se acham, não olhando tanto para a consciência, seguindo-se como se há de seguir mortes injustas, liberdades cativas e mais insolências, que sem atenderem o que costumam fazer soldados, e cabos todas as vezes que vão a estas empresas, pois ainda não houve tropa que desse o gentio sentenciado somente = no que respeita ao gentio do rio Tocantins como Vossa Majestade não há servido se faça por ele caminho para as minas novas, todo dano que fizerem aos que por ali descerem, é serviço que a Vossa Majestade fazem, e como estão nas suas terras vivendo, sem nos virem buscar as nossas, não devem ser castigados pelo que fazem a quem suas vão devassar e saltear, este é o meu parecer Vossa Majestade mandará o que for servido. Convento de Nossa Senhora das Mercês, doze de outubro de 1738. Frei Manoel Borges Comissário Geral e Deputado



Ficha técnica da Fonte
Data: 1738.
Referência: INFORMAR REFERÊNCIA.
Acervo: INFORMAR ACERVO.
Transcrição: Manoel Rendeiro.
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