Ações

Capitania de Pernambuco

De Atlas Digital da América Lusa

(Diferença entre revisões)
 
Linha 1: Linha 1:
 
{{Verbete|nome=George|sobrenome=Cabral de Souza|verbete=
 
{{Verbete|nome=George|sobrenome=Cabral de Souza|verbete=
 
Fundada como capitania donatária com o nome de [[Nova Lusitânia]]. Teve a jurisdição retomada pela Coroa em 1654 e a propriedade em 1716.
 
Fundada como capitania donatária com o nome de [[Nova Lusitânia]]. Teve a jurisdição retomada pela Coroa em 1654 e a propriedade em 1716.
 +
 +
  
 
==Histórico==
 
==Histórico==
 +
  
 
===Doação===
 
===Doação===

Edição atual tal como 09h24min de 30 de janeiro de 2018

por George Cabral de Souza
Este site foi criado em uma Universidade Federal (UnB) e produz conteúdo de qualidade para todos (com a participação de diversos professores de outras instituições federais!).
Valorize esse patrimônio!
Diga não aos cortes!


Fundada como capitania donatária com o nome de Nova Lusitânia. Teve a jurisdição retomada pela Coroa em 1654 e a propriedade em 1716.


Tabela de conteúdo

Histórico

Doação

O litoral do que viria a ser a capitania de Pernambuco, muito provavelmente, já havia sido visitado por navegantes a serviço de Castela antes mesmo do achamento oficial do Brasil. Posteriormente, foi alvo de incursões francesas em busca de pau-brasil. Em 9 de março de 1534, Duarte Coelho recebeu em Évora a doação de uma das 15 capitanias criadas pelo rei Dom João III como prêmio pelo importante papel nas campanhas militares e diplomáticas dos portugueses no extremo Oriente, onde participou diretamente na tomada de Malaca em 1511. Sua capitania compreendia toda a terra entre a boca sul do Canal de Santa Cruz (que separa a Ilha de Itamaracá do continente) e a margem esquerda do Rio São Francisco (bem como suas águas e ilhas). Precisamente às margens do Canal de Santa Cruz, Cristóvão Jacques havia fundado duas feitorias (em 1516 e 1526), em cujas proximidades se fizeram as primeiras experiências na produção açúcar. Estas feitorias foram alvo do ataque dos franceses em várias ocasiões.


Ocupação

Um ano após a doação, o capitão donatário desembarcou com um grupo de colonos e os materiais necessários para o início efetivo da ocupação de sua capitania. Após fundar a vila de Igaraçu no extremo norte de sua jurisdição, lançou as bases da ocupação de Olinda, que viria a ser a capital da sua Nova Lusitânia, desalojando um entrincheiramento de franceses no topo de uma colina confrontante ao Oceano. O porto da localidade situava-se seis quilômetros ao sul, no local onde surgiria a povoação do Recife.[1].

Duarte Coelho apostou suas fichas na extração de pau-brasil e no agronegócio de exportação do açúcar, recusando-se em mais de ocasião a atender os apelos da coroa pela busca de metais preciosos. Ainda durante sua vida foram fundados e moeram os primeiros engenhos de açúcar. Entre as primeiras unidades produtoras estava a do cunhado de Coelho, Jerônimo de Albuquerque, elemento essencial no estabelecimento de acordos com os grupos indígenas do entorno de Olinda. Albuquerque amancebou-se com muitas mulheres indígenas, logrando a vasta descendência mestiça que lhe valeu o epíteto de “Adão Pernambucano”. Na busca por investimentos e apoios para a capitania, Duarte Coelho viajou duas vezes ao Reino, falecendo na corte em 1554, agastado com a recusa do rei Dom João III em lhe receber no paço.[2]

A época Duartina merece ainda um destaque especial: pela primeira vez na história moderna do continente americano, uma mulher assumiu as rédeas de um governo: Dona Brites de Albuquerque, esposa de Duarte Coelho, que governou a terra nas ausência do marido e depois de seu falecimento. Aparece referida nos poucos documentos de época que se conservaram como “capitoa”.

O sucessor de Duarte Coelho, Jorge de Albuquerque Coelho, ampliou a área de presença europeia atacando os grupos indígenas entre área da Várzea do Capibaribe e a foz do rio São Francisco. O massacre das populações nativas abriu espaço para a instalação de mais engenhos de açúcar. Dos cinco registrados em 1542, passa-se a 23 em 1570, 66 em 1583 e 99 em 1612. A boa conjuntura internacional favoreceu o boom açucareiro pernambucano, que superou a produção da Ilha da Madeira em quantidade e qualidade.


Holandeses

As notícias a respeito das riquezas e das oportunidades de ganho rapidamente correram por toda a Europa e Pernambuco entrou na rota de piratas e invasores. Franceses atacaram o porto do Recife em 1565 e ingleses em 1595. Mas foi em 1630 que ocorreu a invasão mais duradoura e com maiores consequências: a da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, uma empresa privada sediada em Amsterdã com capital formado pelo investimento de grandes e pequenos acionistas. A presença holandesa durou até 1654. Do ponto de vista econômico, representou um momento negativo para Pernambuco, uma vez que a produção do açúcar se desorganizou em virtude dos conflitos armados que marcam o período. Uma vez expulsos de Pernambuco, os holandeses abririam novas áreas de produção no Caribe que passaram a concorrer diretamente com o até então soberano açúcar pernambucano.

A passagem por Pernambuco do Conde alemão João Maurício de Nassau-Siegen (entre 1637 e 1644), contratado como administrador das conquistas, foi marcada por uma série de ações pioneiras. Nassau trouxe consigo cientistas e artistas que vão, pela primeira vez no Brasil, realizar estudos sistemáticos sobre a natureza, bem como registrar com grande apuro técnico a paisagem e os habitantes da terra. Eis aí o tesouro de informações contidas nos escritos do astrônomo Marcgrav e do naturalista Piso, e nas telas e desenhos de Frans Post, Albert Eckouht e Zacharias Wagener. Sob o mando de Nassau, o Recife converte-se na mais importante cidade litorânea do Atlântico sul, sendo alvo de intervenções urbanísticas que fizeram surgir ruas calçadas, drenagem, mercados, palácios e as duas primeiras pontes de grande envergadura do Brasil. a principal delas, construída pelo judeu português Baltazar da Fonseca. Apesar de ser calvinista, Nassau permitiu uma convivência minimamente pacífica entre católicos, protestantes e judeus, dando-lhes liberdade de culto. Graças a esta política de tolerância, foi possível ver surgir no Recife as duas primeiras sinagogas das Américas, a primeira delas – chamada Kahalzur Israel – recuperada arqueologicamente e aberta à visitação na rua do Bom Jesus, bairro do Recife.[3]. O governo de Nassau durou de 1637 a 1644. Após desentendimentos com a Companhia, retirou-se para a Europa.[4]

Sua saída de Pernambuco desfez o precário equilíbrio local construído nos anos de seu governo, intensificando o combate contra os invasores que acabariam expulsos após 9 anos de renhidas lutas. Um exército improvisado e mal aprovisionado pelo rei de Portugal conseguiu fazer frente a uma poderosa máquina de guerra. A vitória dos luso-pernambucanos, conseguida sobremaneira com recursos humanos e materiais locais, deu aso a um sentimento nativista e a uma atitude de confrontação com os poderes centrais que a partir daí caracterizam a história da capitania. Os senhores de engenho pernambucanos, pouco a pouco metamorfoseados em uma “nobreza da terra”, passaram a exigir um tratamento diferenciado da coroa portuguesa, o que provocaria sérios atritos nas décadas seguintes.[5]


Nativismo pernambucano

Uma primeira explosão do nativismo pernambucano registra-se na expulsão do governador português Jerônimo de Mendonça Furtado em 1666. Em 1709, a nobreza da terra se rebelou contra a criação da nova câmara do Recife cujo fim era permitir aos ricos comerciantes portugueses radicados em Pernambuco a participação nas decisões políticas locais. Este conflito ficou conhecido como Guerra dos Mascates.[6] Assim como ocorreria nos séculos XIX e XX, no século XVIII milhares de jovens portugueses migraram para Pernambuco em busca de uma vida melhor. Alguns conseguiram ter sucesso tornando-se grandes comerciantes. Os lucros auferidos no comércio foram frequentemente reinvestidos em outras atividades tais como a criação de gado nos sertões. Figuras como José Vaz Salgado, o mais importante homem de negócios em Pernambuco em meados do século XVIII, articulavam fazendas de criação com a produção de carnes salgadas e a manufatura de couros que eram exportados para Portugal e para outras partes da colônia.[7] Os descendentes das primeiras levas de grandes comerciantes, já acomodados nas lides agrárias, possuindo engenhos e arraigados na terra de adoção de seus avós, seriam os protagonistas das novas explosões do nativismo pernambucano no início do século XIX.

O tradicional irredentismo pernambucano embebido pelas ideias ilustradas francesas seria o combustível das manifestações anti-colonialistas e anti-absolutistas nos primeiros 25 anos do século XIX. A divulgação das ideias libertarias ocorria nas lojas maçônicas e no Seminário de Olinda. A revolução republicana de 1817 representou a primeira contestação ao império português com implicações práticas, chegando os revolucionários a assumir o governo durante 75 dias e a promulgar uma lei orgânica considerada por alguns como a primeira constituição redigida por brasileiros.[8] Em 1821 Pernambuco liberou-se do governador e das tropas portuguesas, um ano antes do célebre grito do Ipiranga.[9]



Lista das vilas da Capitania de Pernambuco

Vila Formosa de Sirinháem

Goiana

Igarassu

Vila de Olinda

Vila de Recife

Nossa Senhora da Conceição (Itamaracá)



Capitania de Pernambuco






Bibliografia selecionada da Capitania de Pernambuco


[editar] Referências

  1. PEREIRA DA COSTA, F. A. Anais Pernambucanos. 2a edição. Recife: FUNDARPE, 1983. Vol. 1.
  2. MELLO, J. A. G., ALBUQUERQUE, C. X. DE. Cartas de Duarte Coelho a El Rei. Recife: Editora da UFPE, 1967.
  3. MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação: cristãos-novos e judeus em Pernambuco, 1542-1654. 2ª edição. Recife: Massangana, 1996.
  4. MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos, influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do norte do Brasil. 4ª edição, Rio de Janeiro: Topbooks, 2002. MELLO, Evaldo Cabral de. MELLO, Evaldo Cabral de (Org.). O Brasil holandês, 1630-1654. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  5. MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada: Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630-1654. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 1998. MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: imaginário da Restauração Pernambucana. 3ª edição. São Paulo: Alameda, 2008.
  6. MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos. Nobres contra mascates: Pernambuco 1666-1715. 3a edição. São Paulo: Editora 34, 2012.
  7. SOUZA, George F. Cabral de. Tratos & Mofatras. O grupo mercantil do Recife colonial (c. 1654 – c. 1759). Recife: Editora Universitária da UFPE, 2012.
  8. LEITE, GlacyraLazzari. Pernambuco 1817. Estrutura e comportamentos sociais. Recife: Massangana, 1988.
  9. MELLO, Evaldo Cabral de. A outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2004.



Citação deste verbete
Autor do verbete: George Cabral de Souza
Como citar: CABRAL DE SOUZA, George. "Capitania de Pernambuco". In: BiblioAtlas - Biblioteca de Referências do Atlas Digital da América Lusa. Disponível em: http://lhs.unb.br/atlas/Capitania_de_Pernambuco. Data de acesso: 20 de outubro de 2019.



Baixe a referência bibliográfica deste verbete usando

BiblioAtlas recomenda o ZOTERO

(clique aqui para saber mais)

Informar erro nesta página