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Livro 1 - Do descobrimento do Brasil - Capítulo 7 - Das árvores e ervas medicinais, e outras qualidades ocultas

De Atlas Digital da América Lusa

Edição feita às 08h39min de 9 de janeiro de 2013 por Tiagogil (disc | contribs)

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Além das árvores do salutífero bálsamo, e óleo de copaíba, de que já fiz menção no capítulo sexto, há outras, que destilam de si mui boa almécega, para as boticas: outras chamadas sassafrás, ou árvores de funcho, porque cheiram, a ele, cujas raízes e o próprio pau para enfermidades de humores frios é tão medicinal como o pau da China. Há árvores de canafístula brava, assimchamada, porque se dá nos matos, e outra que se planta, e é a mesma que das Índias. Há umas árvores chamadas anudaz, que dão castanhas excelentes para purgas, e outras que dão pinhões para o mesmo efeito, os quais têm este mistério que se tomam com uma tona, e películo sutil, que tem, provocam o vômito, e se lha tiram, somente provocam a câmera. Mas tem-se por mais fácil, e melhor a purga da batata, ou mechoação, que também há muita pelos matos. Nas praias do mar, ou ao longo delas se dá uma erva, que se não é a salsaparrilha, parece-se com ela, e tomada em suadouros faz os mesmos efeitos. A erva fedegosa, chamada dos gentios e índios feiticeira, pelas muitas curas, que com ela se fazem e, particularmente do bicho, que é uma doença mortífera. As ambaíbas, são umas figueiras bravas que dão uns figos de dois palmos, quase, de comprido, mas pouco mais grossos que um dedo, os quais se comem e são mui doces, e os olhos dessas árvores pisados, e postos em feridas frescas, com o sangue as saram maravilhosamente. A folha da figueira do inferno posta sobre nascidas, e leicenços mitiga a dor, e a sara. As de jurubeba saram as chagas, e as raízes são contra peçonha. A caroba sara das boubas. O cipó, das câmeras; enfim não há enfermidade contra a qual não haja ervas nesta terra, nem os índios naturais dela têm outra botica ou usam de outras medicinas. Outras há de qualidades ocultas, entre as quais é admirável uma ervazinha, a que chamam erva viva, e lhe puderam chamar sensitiva, se o não contradissera a filosofia, a qual ensina o sensitivo ser diferença genérica que distingue o animal da planta, e assim define o animal, que é corpo vivente sensitivo. Mas contra isto vemos, que se tocam esta erva com a mão, ou com qualquer outra coisa, se encolhe logo, e se murcha, como se sentira o toque, e depois que a largam, como já esquecida do agravo, que lhe fizeram, se torna a estender e abrir as folhas; deve isto ser alguma qualidade oculta, qual a da pedra de cevar para atrair o ferro, e não lhe sabemos outra virtude.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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