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Livro 2 - DA HISTÓRIA DO BRASIL NO TEMPO DO SEU DESCOBRIMENTO - Capítulo 9 - De como Duarte Coelho correu a costa da sua capitania, fazendo guerra aos franceses, e paz com o gentio, e se foi para o reino

De Atlas Digital da América Lusa

Edição feita às 18h00min de 3 de outubro de 2012 por Tiagogil (disc | contribs)

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Não menos foi o aperto em que Duarte Coelho / como temos tocado / teve tudo este tempo na vila de Olinda, tendo-o por algumas vezes os inimigos posto em cerco em a sua torre, com muitas necessidades de fome e sede, contra quem não valiam as balas, que valorosamente atiravam de dentro, ainda que com elas matavam muitos gentios e franceses: mas Deus Nosso Senhor, que excitou o ânimo de Raab, mulher desonesta, para que escondesse as espias de seu povo, e fosse instrumento da vitória que se alcançou contra Jericó, a excitou também a filha de um principal destes gentios, que se havia afeiçoado a um Vasco Fernandes de Lucena, e de quem tinha já filhos, para que fosse entre os seus, e gabando os brancos às outras as trouxessem todas carregadas de cabaças de água, e mantimentos, com que os nossos se sustinham; porque isto faziam muitas vezes, e com muito segredo, e era este Vasco Fernandes tão bem temido e estimado entre os gentios, que o principal se tinha por honrado em tê-lo por genro, porque o tinham por grande feiticeiro; e assim uma vez que o cerco era mais apertado e estavam os de dentro receosos de os entrarem, saiu ele só fora, e lhes começou a pregar na sua língua brasílica, que fossem amigos dos portugueses, como eles o eram seus, e não dos franceses, que os enganavam, e traziam ali para que fossem mortos, e logo fez uma risca no chão com um bordão, que levava, dizendo-lhes que se avisassem, que nenhum passasse daquela risca para a fortaleza, porque todos os que passassem haviam de morrer, ao que o gentio deu uma grande risada, fazendo zombaria disto, e sete ou oito indignados se foram a ele para o matarem, mas, em passando a risca, caíram todos mortos; o que visto pelos mais levantaram o cerco, e se puseram em fugida. Não crera eu isto, posto que o vi escrito por pessoa, que o afirmava, se não soubera que neste próprio lugar, onde se fez à risca, defronte da torre, se edificou depois um suntuoso templo do Salvador, que é matriz das mais igrejas de Olinda, onde se celebram os divinos ofícios, com muita solenidade e, assim não se há de atribuir aos feitiços senão à Divina Providência, que quis com este milagre sinalar o sítio, e imunidade do seu templo. Com estas e outras vitórias, alcançadas mais por milagres de Deus, que por forças humanas, cobrou Duarte Coelho tanto ânimo, que não se contentou de ficar na sua povoação pacífico, senão ir-se em suas embarcações pela costa abaixo até o rio de S. Francisco, entrando nos portos todos de sua capitania, onde achou naus francesas, que estavam ao resgate de pau-brasil com o gentio, e as fez despejar os portos, e tomou algumas lanças e franceses, posto que não tanto a seu salvo, e dos seus, que não ficassem muitos feridos, e ele de uma bombardada, de que andou muito tempo maltratado, e contudo não se quis recolher até não a limpar a costa toda destes ladrões, e fazer pazes com os mais dos índios, e isto feito se tornou para a sua povoação com muitos escravos, que lhe deram os índios, dos que tinham tomados nas suas guerras, que uns lá tinham com os outros, o que fez também muito temido, e estimado dos circunvizinhos de Olinda, dizendo todos que aquele homem devia ser algum diabo imortal, pois se não contentava de pelejar em sua casa com eles, e com os franceses, mas ainda ia buscar fora com quem pelejar, e com isto mais por medo que por vontade lhe foram dando lugar para fazer um engenho uma légua da vila, e seu cunhado Jerônimo de Albuquerque outro; e os lavradores suas roças de mantimentos, e canaviais, a que o gentio os vinha ajudar, e lhes traziam muitas galinhas, caças, e frutas do mato, peixe, e mariscos a troco de anzóis, facas, foices, e machados, que eles estimavam muito. Fez também caravelões, e lanchas em que fossem resgatar com os da costa com que tinha feito pazes, donde a troco das mesmas ferramentas, e de outras coisas de pouca valia, resgatavam muitos escravos e escravas, de que se serviam, e os casavam com outros livres, que os serviam também como os cativos. Vendo Duarte Coelho que a terra estava quieta, e os moradores contentes, determinou ir-se a Portugal com seus filhos, deixando o governo da capitania a seu cunhado Jerônimo de Albuquerque em companhia da irmã. O intento que o levou devia ser para requerer seus serviços, que na verdade eram grandes; e ainda que eram para seu proveito, e de seus descendentes, aos quais rende hoje a capitania perto de vinte mil cruzados: muito mais eram para el-rei, a quem só os dízimos passam cada ano de 60 mil cruzados, fora o pau-brasil, e direitos do açúcar, que importam muito os desta capitania por haver nela cem engenhos; porém como ainda então não havia tantos, nem tanta renda, e devia estar mexericado com el-rei, que lhe tomava a jurisdição, quando lhe foi beijar a mão lho remocou, e o recebeu com tão pouca graça, que indo-se para casa enfermou de nojo, e morreu daí a poucos dias; pelo que indo Afonso de Albuquerque com dó ao passo, e sabendo el-rei dele por quem o trazia, lhe disse: Pesa-me ser morto Duarte Coelho, porque era muito bom cavaleiro. Esta foi a paga de seus serviços, mas mui diferente a que de Deus receberia, que é só o que paga dignamente, e ainda ultra condignum, aos que o servem.