Projeto de pesquisa · Laboratório de História Social · UnB
Atlas dos espaços de religiões afro-brasileiras no Distrito Federal e entorno
Mapeamento digital colaborativo para preservação da memória e valorização das comunidades tradicionais de terreiro.
O que é o Axés
Um mapa feito pelas próprias casas
O Axés é a plataforma digital do Atlas: uma rede onde terreiros, casas de axé, roças e demais espaços sagrados das religiões de matriz africana do Distrito Federal e entorno se cadastram, contam sua história e se encontram.
A diferença em relação a um levantamento comum está em quem escreve. Aqui as comunidades não são objeto de estudo: são as autoras do registro. Cada casa mantém sua própria ficha, decide o que torna público e atualiza sua história quando quiser. A pesquisa acompanha, organiza e dá suporte — não substitui a voz de ninguém.
O projeto é coordenado por Mariana Regis, Marilea de Almeida e Tiago Luís Gil, no Laboratório de História Social da Universidade de Brasília, em parceria com a Fundação Cultural Palmares.
Por que este mapa existe
Uma presença que a cidade não registrou
As religiões de matriz africana chegaram ao Centro-Oeste sobretudo na segunda metade do século XX, junto com a migração que construiu Brasília. Vieram pessoas, e com elas sistemas cosmológicos, práticas rituais, saberes ancestrais e formas próprias de organização comunitária. Os terreiros que se firmaram aqui são arquivos vivos dessa memória — e se firmaram em condições de enorme precariedade.
A narrativa oficial da capital, centrada na modernidade e no progresso, omitiu essa contribuição. A especulação imobiliária e a ausência de reconhecimento jurídico do direito territorial empurraram muitas casas para processos de desterritorialização. E o racismo religioso, que se manifesta em ataques, difamação e discriminação institucional, leva muitos praticantes a omitirem sua filiação em censos e documentos — o que faz os dados oficiais subestimarem sistematicamente essa presença.
Sem dados, não há pesquisa, não há política pública e não há proteção. Registrar é, antes de tudo, um ato de permanência.
Compromissos com as comunidades
Quem se cadastra continua no controle
- Participar é uma escolha. Toda comunidade assina um termo de consentimento livre e esclarecido, discutido coletivamente e escrito em linguagem acessível — e pode se retirar a qualquer momento.
- Cada casa decide o que fica público. Campo a campo: endereço, telefone, número de integrantes, história de fundação. O que a comunidade não quiser mostrar, não aparece.
- As coordenadas podem ser ocultadas ou generalizadas quando a comunidade avaliar que a localização exata representa risco.
- Nenhuma narrativa é publicada sem voltar para quem a contou. Há direito de revisar, complementar e excluir trechos antes e depois da publicação.
- O conhecimento é da comunidade. Narrativas, saberes e representações permanecem propriedade intelectual das casas; os produtos do projeto são criações coletivas.
- Os resultados voltam. Estão previstos encontros de devolução em que as comunidades avaliam e complementam o que foi produzido.
A plataforma guarda os dados com criptografia, backup automático e níveis diferentes de acesso, seguindo os princípios éticos da pesquisa com comunidades tradicionais.
Como o trabalho é feito
Cinco eixos, um método
Mapeamento participativo
Oficinas de cartografia social em que cada casa identifica e descreve seus espaços segundo suas próprias categorias. O georreferenciamento é feito com GPS, sempre acompanhado e autorizado pela comunidade, e restrito às áreas que ela decidir registrar.
História oral
Entrevistas em profundidade com fundadores, pais e mães de santo e demais lideranças, sobre fundação da casa, trajetórias migratórias e transformações do território. Também rodas de conversa, que fazem emergir a memória coletiva que a entrevista individual não alcança.
Etnografia colaborativa
Observação apenas em atividades públicas, com autorização prévia e respeito às normas internas de cada espaço. A documentação fotográfica prioriza arquitetura, arte e paisagem, e nunca entra no que é reservado.
Desenvolvimento tecnológico
Esta plataforma. Construída em tecnologias web abertas, acessível em qualquer dispositivo, com gestão colaborativa: são as próprias comunidades que atualizam e complementam as informações sobre suas casas.
Materiais educativos
Recursos didáticos em formato digital, impresso e audiovisual para a implementação da Lei 10.639/03, produzidos a partir da pesquisa e com participação das comunidades, acompanhados de capacitação de educadores.
Cronograma
Doze meses de execução
Meses de execução contados a partir do início do projeto. Todas as fases sob responsabilidade da coordenação.
O que o projeto entrega
Quatro produtos
Plataforma digital interativa
Esta rede, com mapa, fichas das casas e publicações.
Atlas impresso
Versão em papel do mapeamento, para circulação fora da internet.
Materiais didáticos
Recursos para a educação básica e para a formação de professores.
Banco de dados científico
Base georreferenciada aberta a novas pesquisas e a políticas públicas.
Na escola
Lei 10.639/03
A Lei 10.639/03 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira na educação básica, mas sua aplicação esbarra na falta de material didático adequado e na formação insuficiente dos professores. O Atlas responde a isso com recursos construídos sobre pesquisa e com participação das próprias comunidades — material sobre as casas do Distrito Federal e entorno, e não sobre uma cultura afro-brasileira distante e genérica.
Fundamentação teórica
Sobre quais ombros
- Religiões afro-brasileiras em perspectiva histórica
- João José Reis, Luís Nicolau Parés, Wlamyra Albuquerque, Lisa Earl Castillo
- História social e territorialidades religiosas
- Silvia Hunold Lara, Flávio Gomes, Keila Grinberg, Hebe Mattos
- História digital e metodologias colaborativas
- Anita Lucchesi, Sônia Maria de Freitas, José Carlos Sebe Bom Meihy, Marieta de Moraes Ferreira, Lucília de Almeida Neves Delgado
- Patrimônio cultural e preservação da memória
- Márcia Chuva, Lia Calabre, José Reginaldo Santos Gonçalves, Mário Chagas
Ficha técnica
Identificação do projeto
- Coordenação
- Mariana Regis, Marilea de Almeida, Tiago Luís Gil
- Instituição proponente
- Laboratório de História Social — Universidade de Brasília
- Instituição parceira
- Fundação Cultural Palmares
- Áreas do conhecimento
- História Social, Geografia Cultural, Antropologia das Religiões
- Duração
- 12 meses
- Modalidade
- Pesquisa aplicada com extensão universitária
- Desenvolvedor de software do projeto
- Julio Rarick Lopes Bogalho - juliorarick.tech
Sua casa pode entrar no mapa
O cadastro é feito pela própria comunidade e nada se torna público sem que ela decida. Você pode começar vendo as casas já cadastradas.
