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Livro 1 - Do descobrimento do Brasil - Capítulo 17 - Dos que cativam na guerra

De Atlas Digital da América Lusa

Os que podem cativar na guerra levam para vender aos brancos, os quais lhe compram por um machado, ou foice cada um, tendo-os por verdadeiros cativos, não tanto por serem tomados em guerra, pois não consta da justiça dela, quanto por a vida que lhes dão, que é maior bem que a liberdade; porque se os brancos os não compram, os primeiros senhores os têm em prisões atados pelo pescoço, e pela cinta com cordas de algodão grossas e fortes, e dão a cada um por mulher a mais formosa moça, que há na casa, a qual tem o cuidado de o regalar, e lhe dar de comer até que engorde, e esteja para o poderem comer, e então ordenam grandes festas, e ajuntamentos de parentes e amigos, chamados de 30, 40 léguas, com os quais na véspera, e dia do sacrifício, cantam e bailam, comem, e bebem alegremente, e também o padecente come e bebe com eles, depois o untam com mel de abelhas, e sobre o mel o empenam com muitas penas de várias cores, e a lugares o pintam de jenipapo, e lhe tingem os pés de vermelho, e metendo-lhe uma espada na mão, para que se defenda como puder, o levam assim atado a um terreiro fora da aldeia, e o metem entre dois mourões, que estão metidos no chão, afastados um do outro alguns 20 palmos, os quais estão furados, e por cada furo metem as pontas das cordas, onde o preso fica como touro, e as velhas lhe cantam, que se farte de ver o sol, pois cedo o deixará de ver, e o cativo responde com muita coragem, que bem vingado há de ser, então vão buscar o que há de matar a sua casa todos os seus parentes, e amigos, onde o acham já pintado de tinta de jenipapo com carapuça de penas na cabeça, manilhas de ossos nos braços, e nas pernas grandes ramais de contas ao pescoço, com seu rabo de penas nas ancas, e uma espada de pau pesada de ambas as mãos mui pintada, com cascas de mariscos pegadas com cera, e no cabo e empunhadura da espada grandes penachos; e assim o trazem com grandes cantares, e tangeres de seus búzios, gaitas e tambores, chamando-lhe bem­aventurado, pois chegou a tamanha honra, e com este estrondo entra no terreiro, onde o paciente o espera, e lhe diz que se defenda, porque vem para o matar, e logo remete a ele com a espada de ambas as mãos, e o padecente com a sua se defende, e ainda às vezes ofende, mas como os que o tem pelas cordas o não deixam desviar do golpe, o matador lhe quebra a cabeça, e toma nome, que depois declara com as cerimônias que vimos no capítulo passado.

Em morrendo este preso, logo os velhos da aldeia o despedaçam, e lhe tiram as tripas e forçura, que mal lavadas cozem para comer, e reparte-se a carne por todas as casas, e pelos hóspedes, que vieram a esta matança, e dela comem logo assada, e cozida, e guardam alguma muito assada, e mirrada, a que chamam moquém, metida em novelos de fio de algodão, e posta nos caniços ao fumo, para depois renovarem o seu ódio, e fazerem outras festas, e do caldo fazem grandes alguidares de migas, e Papas de farinha de carimã, para suprir na falta de carne, e poder chegar a todos; o que o matou nenhuma coisa come dele, antes se vai logo deitar na rede, e se faz todo sarrafaçar, e sangrar, tendo por certo que morrerá se não derrama de si aquele sangue, nem faz

o cabelo dali a sete ou oito meses, os quais passados faz muitos vinhos, e apelida os amigos para beber e cantar, e com essa festa se tosqueia, dizendo que tira o dó daquele morto, e é tão cruel este gentio com os seus cativos, que não só os matam a eles, mas se acontece a algum haver filho da moça que lhe deram por mulher, a obrigam que o entregue a um parente mais chegado, para que o mate, quase com as mesmas cerimônias, e a mãe é a primeira que lhe come a carne; posto que algumas, pelo amor que lhes têm, os escondem, e às vezes soltam também os presos, e se vão com eles para suas terras, ou para outras.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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