Ações

Livro 2 - DA HISTÓRIA DO BRASIL NO TEMPO DO SEU DESCOBRIMENTO - Capítulo 11 - Da capitania de Itamaracá

De Atlas Digital da América Lusa

Já dissemos no capítulo segundo como Pero Lopes de Souza não tomou as 50 léguas de terra, de que el-rei lhe fez mercê, todas juntas, senão repartidas, 25 da capitania de São Vicente para o sul, e outras 25 da capitania de Pernambuco para o norte, a que chamam de Itamaracá por respeito de uma ilha assim chamada, na qual está situada a vila da Conceição com uma igreja matriz do mesmo título, e outra da Santa Misericórdia. A ilha tem duas léguas de comprido, ou pouco mais, ao redor dela vem desembocar cinco rios, dos quais, o de Iguaraçu, que demarca e extrema esta capitania da de Pernambuco, e está em 7º e um terço, alaga da ilha da parte do sul, onde está a dita vila, e o porto dos Navios, os quais para entrarem tem por baliza, e sinal umas barreiras vermelhas, com as quais pondo-se nordeste sudoeste entram pela barra à vontade. Outra barra tem a ilha à parte do norte, pela qual entram caravelões da costa. Os outros rios que da terra firme vêm desembocar ao redor desta ilha são os de Araripe, Tapirema, Tujucupapo e Gueena, nos quais há mui bons engenhos de açúcar principalmente neste último de Gueena, onde está outra freguesia. Nesta ilha de Itamaracá tinham os franceses feito uma fortaleza com um presídio de mais de cem soldados, com muitas munições, e artilharia, onde se recolhia a gente dos seus navios quando vinham a carregar de pau-brasil, que os gentios lhe cortavam, e acarretavam aos ombros a troco de ferramenta e outros resgates de pouca valia, que lhes davam, como também lhes traziam a troco dos mesmos muito algodão, e fiado, e redes feitas em que dormem, bugios, Papagaios, pimenta e outras coisas que a terra dá, que para os franceses era de muito ganho, e por esta causa assim neste porto como nos mais do Brasil comerciavam com o gentio, e os alteravam contra os portugueses, induzindo-os que os não consentissem povoar, antes os matassem e comessem, porque o mesmo vinham eles a fazer, o qual sabido por el-rei d. João Terceiro, ordenou uma armada mui bem provida de todo o necessário, e mandou nela por capitão-mor Pero Lopes de Souza, para que viesse primeiramente a esta ilha, e daqui a todos os mais portos, e lançasse dele todos os franceses que achasse, e destruísse suas fortalezas e feitorias, levantando outras, donde lhe carregassem o pau­brasil por sua conta, porque esta era a droga que tomava para si. Esta armada partiu de Lisboa, e navegou prosperamente até avistar a ilha de Itamaracá a tempo que havia dela saído uma nau francesa carregada para França, a qual cuidou fugir-lhe, mas mandou atrás dela uma caravela muito ligeira, e por capitão dela um João Gonçalves, homem de sua casa, de cujo esforço tinha muita confiança, pela experiência que dele tinha de outras armadas em que o acompanhou contra os corsários na costa de Portugal e de Castela; e como a caravela era um pensamento, e a nau francesa sobrecarregada, posto que alojou muita parte da carga do pau-brasil, enfim foi alcançada, e querendo se pôr em defesa lhe tiraram da nossa com um pelouro de cadeia, que a colheu de proa a popa, e a desenxarceou de uma banda, e lhe matou alguns homens, com o que se renderam os mais, que eram 35 entre grandes e pequenos, e a nau com oito peças de artilharia, com a qual presa se tornou o capitão João Gonçalves, havendo já 27 dias que o capitão­mor estava na ilha, onde teve informação de outra nau que vinha de França com munições e resgates aos franceses, e a mandou esperar por outras duas caravelas, de que foram por capitães

Álvaro Nunes de Andrada, homem fidalgo, galezo, da geração dos Andradas, e Gamboas, e Sebastião Gonçalves Arvelos, os quais a tomaram, e entraram com ela na mesma maré em que João Gonçalves entrou com a outra, com que os franceses da fortaleza começaram a enfraquecer, e desmaiar, e muito mais porque se lhe levantou um levantisco, e alguns portugueses que eles tinham tomado, e andavam entre os gentios, os quais, como lhes sabiam falar já a língua, os amotinaram contra os franceses de tal modo, que se Pero Lopes de Souza lho não proibira, quiseram logo matá­los, e comê-los, que tão variável é o gentio, e amigo de novidades; e assim vieram logo os principais oferecer-se a Pero Lopes de Souza para isto, e para tudo o mais que lhes mandasse; o qual os recebeu benignamente, e lhes disse que não fizessem o mal aos franceses, porque todos eram irmãos, nem ele lho havia de fazer, se lhe não resistissem, antes muitos benefícios, e favores; sabido isto pelos franceses / que logo lhe foram dizer / lhe mandou o seu capitão oferecer que fosse tomar entrega da fortaleza, e deles, que todos queriam ser seus prisioneiros, e cativos, e só pediam mercê das vidas, e assim se fez; não esperando o capitão da fortaleza que Pero Lopes de Souza chegasse a ela, mas ao caminho lhe trouxe as chaves, e lhas entregou com todos os seus soldados desarmados, ele lhes mandou entregar a sua roupa, e despejada a fortaleza da artilharia, e do mais que tinha a mandou arrasar, fazendo outra mais forte na povoação, e outra nos marcos, para resguardo da feitoria Del-rei, que depois Sua Alteza deu a Duarte Coelho, onde logo se tratou de fazer muito pau para a carga dos navios: e enquanto estas coisas se faziam sucedeu uma noite, que estando o capitão-mor com a candeia, e janela aberta lhe tiraram de fora com duas flechas, das quais uma lhe foi tocando com as penas pelo roupão, e ambas se foram pregar em umas rodelas, que estavam defronte na parede, o qual suspeitando nos franceses, mandou pela manhã que os enforcassem todos, e começando-se a fazer execução, vendo dois que ele havia tomado para a fortaleza por serem bombardeiros, que os mais eram inocentes, disseram em altas vozes que eles eram os culpados, que lhe haviam atirado cuidando de o acertarem, e nenhum daqueloutros tinha culpa; pelo que mandou sustar a execução neles, e enforcar a estoutros, mas estavam muitos enforcados, e cá se consumiram todos, com que os gentios ficaram estimando mais os portugueses, e os começaram a ajudar a fazer suas roças e fazendas, e a cortar e trazer o pau, que se havia de carregar nos navios de el-rei, o que tudo se lhes pagava muito a seu gosto. Carregados os navios da armada que o capitão havia trazido para este efeito se partiram para o reino, e ele nos outros foi correr a costa, como el-rei lhe mandava, onde entrou em muitos portos, e queimou algumas naus francesas que achou, mas os franceses lhe fugiram pela terra dentro com os gentios, donde depois nos fizeram muito mal. Ultimamente chegou a São Vicente, onde achou a seu irmão mais velho, Martim Afonso de Souza, fortificando, e povoando a sua capitania, e dando ordem a se povoar, e fortificar também a sua de São Vicente para o sul, se tornou a esta de Itamaracá, e achando boa informação de um Francisco de Braga, grande intérprete do Brasil, que havia deixado em seu lugar, o tornou a deixar com todos os seus poderes, e se tornou a Portugal a dar conta a el-rei do que tinha feito, donde foi por capitão-mor de quatro naus para a Índia o ano de 1539, e a tornada para o reino se sumiu a nau em que vinha, sem nunca mais aparecer, nem coisa alguma dela.

Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
Referência: .
Acervo: .
Transcrição: .
link principal no BiblioAtlas: Frei Vicente do Salvador - A História do Brazil