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Livro 3 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Tomé de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Manuel Teles Barreto - Capítulo 12

De Atlas Digital da América Lusa

Posto que o governador Mem de Sá não estava ocioso na Bahia, não deixava de estar com o pensamento nas coisas do Rio de Janeiro, e assim sacudindo-se de todas as mais, aprestou uma armada, e com o bispo d. Pedro Leitão, que ia visitar as capitanias do sul, que todas naquele tempo eram da sua diocese, e jurisdição, e com toda a mais luzida que pôde levar desta cidade, se embarcou e chegou brevemente ao Rio, onde em dia de São Sebastião, vinte de janeiro do ano de mil quinhentos sessenta e sete, acabou de lançar os inimigos de toda a enseada, e os seguiu dentro de suas terras sujeitando-os a seu poder, e arrasando dois lugares em que se haviam fortificado os franceses, posto que em um deles, que foi na aldeia de um índio principal chamado Iburaguaçu mirim, que quer dizer «pau grande pequeno,» lhe feriram seu sobrinho Estácio de Sá de uma mortífera flechada, de que depois morreu. Sossegadas as coisas da guerra, escolheu o governador sítio acomodado ao edifício de uma nova cidade, a qual mandou fortalecer com quatro castelos, e a barra ou entrada do Rio com dois, chamou a cidade de S. Sebastião, não só por ser nome de seu rei, senão por agradecimento dos benefícios recebidos do santo, pois a vitória passada se ganhou dia de S. Sebastião; e em este dia, dois anos antes, partiu Estácio de Sá de S. Vicente para o Rio de Janeiro, e começou a guerra invocando o seu favor, o qual reconheceram bem os portugueses, assim na batalha naval das canoas, como em outras ocasiões de perigo. Pelo que, ainda em memória da vitória das canoas, se faz todos os anos naquela baía, defronte da cidade, no dia do glorioso São Sebastião uma escaramuça de canoas com grande grita dos índios, que as remam, e se combatem, coisa muito para ver. O sítio em que Mem de Sá fundou a cidade de São Sebastião foi o cume de um monte, donde facilmente se podiam defender dos inimigos, mas depois, estando a terra de paz, se estendeu pelo vale ao longo do mar, de sorte que a praia lhe serve de rua principal, e assim sendo lá capitão­mor Afonso de Albuquerque, se achou uma manhã defronte da porta do Convento do Carmo, que ali está, uma baleia morta, que de noite havia dado à costa; e as canoas que vem das roças, ou granjas dos moradores, ali ficam desembarcando cada um à sua porta, ou perto dela, com o que trazem, sem lhe custar trabalho de carretos, como costa pela ladeira acima. Nem eles próprios lá subiram em todo o ano, e menos as mulheres, se não fora estar lá a igreja Matriz, e a dos padres da companhia, pela qual causa mora ainda lá alguma gente. Fundada pois a cidade pelo governador Mem de Sá no dito outeiro, ordenou logo que houvesse oficiais, e ministros da milícia, justiça, e fazenda, e porque haviam ido na armada mercadores, que entre outras mercadorias levaram algumas pipas de vinho, mandou-lhes o governador que o vendessem atavernado, e pedindo eles que lhes pusesse a canada por um preço excessivo, tirou ele o capacete da cabeça com cólera, e disse que sim, mas que aquele havia de ser o quartilho, e assim foi, e é ainda hoje, por onde se afilam as medidas, donde vem serem tão grandes, que a maior peroleira não leva mais de cinco quartilhos. Entre os primeiros franceses, que vieram ao Rio de Janeiro em companhia de Nicolau Villegaignon, de que tratamos no capítulo oitavo deste livro, vinha um hereje calvinista chamado João Bouller, o qual fugiu para a capitania de S. Vicente, onde os portugueses o receberam cuidando ser católico, e como tal o admitiam em suas conversações, por ele ser também na sua eloqüente, e universal na língua espanhola, latina, grega, e saber alguns princípios da hebréia, e versado em alguns lugares da Sagrada Escritura, com os quais entendidos a seu modo dourava as pirolas, e encobria o veneno aos que o ouviam, e viam morder algumas vezes na autoridade do Sumo Pontífice, no uso dos sacramentos, no valor das indulgências, e na veneração das imagens. Contudo não faltou quem o conhecesse / que ao lume da Fé nada se esconde /, e o foram denunciar ao bispo, o qual o condenou como seus erros mereciam, e sua obstinação, que nunca quis retratar­se; pelo que o remeteu ao governador, o qual o mandou que à vista dos outros, que tinham cativos na última vitória, morresse a mãos de um algoz. Achou-se ali para o ajudar a bem morrer o padre José de Anchieta, que já então era sacerdote, e o tinha ordenado o mesmo bispo d. Pedro Leitão, e posto que no princípio o achou rebelde não prometeu a Divina Providência que se perdesse aquela ovelha fora do rebanho da igreja, senão que o padre com suas eficazes razões, e principalmente com a eficácia da graça, o reduzisse a ela, ficou o padre tão contente deste ganho, e por conseguinte tão receoso de o tornar a perder, que vendo ser o algoz pouco destro em seu ofício, e que se detinha em dar a morte ao réu, e com isso o angustiava, e o punha em perigo de renegar a verdade, que já tinha confessada, repreendeu o algoz, e o industriou para que fizesse com presteza seu ofício, escolhendo antes pôr-se a si mesmo em perigo de incorrer nas penas eclesiásticas, de que logo se absolveria, que arriscar-se aquela alma às penas eternas. Casos são estes que desculpa a divina dispensação, e a caridade, que é sobre toda a lei, e sem isto mais são para admirar, que para imitar. Ordenadas todas as coisas tocantes ao governo político, povoada, e fortificada a terra, a encarregou o governador a Salvador Corrêa de Sá, seu sobrinho, para que a governasse, e ele se tornou para a Bahia.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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