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Livro 3 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Tomé de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Manuel Teles Barreto - Capítulo 22 - Do princípio da rebelião, e guerras do gentio da Paraíba

De Atlas Digital da América Lusa

O rio da Paraíba, que nas cartas de marear se chama de S. Domingos, está em seis graus e três quartos... A boca da abra que o rio faz tem de largo uma légua, e o canal que vai pelo meio, que é o que chamam barra, tem um quarto de légua, e todo o mais de uma parte e outra é muito esparcelado, o fundo é de areia limpa, e assim é muito maior porto, e capaz de maiores embarcações, que o de Pernambuco, do qual dista 22 léguas de costa para a banda do norte. Pelo rio acima uma légua tem uma ilha formosa de arvoredo de uma légua de comprido, e um terço de largo, defronte da qual esta o surgidouro das naus capaz de grande quantidade delas, e abrigado de todos os ventos, e chega ainda a maré pelo rio acima cinco léguas, por onde podem navegar grandes caravelões; tem uma várzea de mais de 14 léguas de comprido, e de largo duas mil braças, toda retalhada de esteiros, e rios caudais de água doce, que já hoje está toda povoada de canas-de-açúcar e engenhos, para os quais dão os mangues do salgado lenha para se cozer o açúcar, e para cinza da decoada em que se limpa; neste rio entravam mais de 20 naus francesas todos os anos a carregar de pau-brasil, com ajuda que lhes davam os gentios Potiguares, que senhoreavam toda aquela terra da Paraíba até o Maranhão algumas 400 léguas: e assim ajudavam os portugueses vizinhos das capitanias de Itamaracá e Pernambuco, depois que tiveram pazes, como fica dito no capítulo décimo segundo do livro segundo; mas tantas vexações, e perrarias lhe fizeram, que se tornaram a rebelar. Uma só contarei, que foi como disposição última, e ocasião propínqua desta rebelião, e foi que entre outros mamalucos, que andavam pelas aldeias suas resgatando peças cativas, e outras coisas, e debaixo disto roubando-os com violência e enganos, houve um natural de Pernambuco, o qual, posto que era filho de um homem honrado, tirou mais a ralé da mãe que do pai; este indo a uma aldeia da Capaôba com seus resgates se agasalhou em um rancho de um principal grande chamado Iniguaçú, que quer dizer «rede grande», e se namorou de uma filha sua, moça de 15 anos, dizendo que queria casar ou amancebar-se com ela, para ficar entre eles, e não vir mais para os brancos, no que ela consentiu, e o pai também, entendendo que cumpriria o noivo a condição prometida. Porém indo a uma caça, que durou alguns dias, quando tornou não achou o genro, nem a filha, porque se haviam ido para Pernambuco: sentiu-o muito, e mandou logo dois filhos seus em busca da irmã, os quais, porque o mamaluco lha não quis dar se foram queixar a Antônio Salema, que estava por correição em Pernambuco, posto que já de partida para a Bahia, e ele mandou logo notificar que o pai do querelado, que trouxesse a moça, como trouxe, e a entregou aos irmãos, passando-lhes uma provisão para que ninguém lhes impedisse o caminho, ou lhes fizesse agravo, antes lhes dessem os brancos por onde passassem todo o favor, e ajuda para o seguirem; avisando­os que não consentissem mamalucos em suas aldeias, e assim o avisou ao capitão-mor da ilha Afonso Rodrigues Bacelar, que não consentisse em ir ao sertão semelhante gente. Foram os negros mui contentes com sua irmã, e mais depois que viram o bom agasalhado, que pelo caminho lhes faziam os brancos, obedecendo à provisão que levavam, até que chegaram à casa de um Diogo Dias, que era o derradeiro que estava nas fronteiras da capitania de Itamaracá, o qual os recebeu com muitas mostras de amor, e muito mais a irmã, que mandou recolher com outras moças de Câmera, sem mais a querer dar aos portadores, nem ao outros, que o pai mandou depois que soube, pedindo-lhe que lhe mandasse sua filha, e quando não quisesse a fossem pedir ao dito capitão-mor da ilha, como foram, e nenhuma coisa aproveitou, porque o capitão era amigo de Diogo Dias, e dissimulou com o caso. Espalhada esta nova pelos gentios das aldeias quiseram logo tomar vingança nos regatões, que nelas estavam, e tomar-lhes os resgates; mas o principal agravado lhes foi à mão dizendo que aqueles não tinham culpa, e não era razão pagassem os justos pelos pecadores, e somente os fez sair das aldeias, e ir para suas casas como o corregedor Antônio Salema havia mandado; tão bem intencionado era este negro, e afeto aos portugueses, que nem ainda de seu ofensor tomara vingança, senão fora atiçado por outros Potiguares, principalmente pelos da beira-mar, com os quais comunicavam os franceses, e para o seu comércio do pau-brasil lhes importava muito ter aliança com estoutros da serra, e como nesta conjunção estavam três naus francesas à carga na baía da Traição, e o capitão-mor da ilha de Itamaracá havia dado um assalto, que matou alguns franceses, e lhes queimou muito pau que tinham feito, no qual o assalto se havia também achado Diogo Dias, tantas coisas disseram ao bom Rede Grande, que veio a consentir que dessem em sua casa, e fazenda, que era um engenho que havia começado no rio Taracunhaê; e porque sabiam que o homem tinha muita gente, e escravos, e uma cerca mui grande feita, com uma casa forte dentro, em que tinha algumas peças de artilharia, se concertaram que ele viria com todo o gentio da serra por uma parte, e o Tujucipapo, que era o maior principal da ribeira, com os seus, e com os franceses por outra, e assim como o disseram o fizeram, e com serem infinitos em número ainda usaram de uma grande astúcia, que não remeteram todos à cerca nem se descobriram, senão somente alguns, e ainda estes começando os nossos a feri-los de dentro com flechas, e pelouros, se foram retirando como que fugiam; o que visto por Diogo Dias se pôs a cavalo, e saindo da cerca com os seus escravos, foi em seu seguimento, mas tanto que o viram fora rebentaram os mais da cilada com um urro, que atroava a terra, e o cercaram de modo, que não podendo recolher-se à sua cerca, foi ali morto com todos os seus, e a cerca entrada, onde não deixaram branco nem negro, grande nem pequeno, macho nem fêmea, que não matassem, e esquartejassem. Foi esta guerra dos Potiguares, governando o Brasil Luiz de Brito, na era de mil quinhentos setenta e quatro, e dela se seguiram tantas, que duraram 25 anos.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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