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Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 14 - De como o ouvidor-geral foi da Paraíba a Copaíba

De Atlas Digital da América Lusa

Da cidade de Nossa Senhora das Neves, onde o ouvidor-geral Martim Leitão deixou Pero de Albuquerque por capitão em quatro jornadas, chegou a grande cerca de Penacama, que era um grande e principal Potiguar, aonde Duarte Gomes da Silveira havia ido o outubro atrás, e depois de lhe suceder muito bem, ao recolher lhe mataram oito ou dez homens, que foi a maior perda que esta empresa da Paraíba teve depois de correr por Martim Leitão, e que ele em extremo sentiu; porque além das guerras, que todos estes anos lhes dava por sua pessoa, sempre lhe mandava dar outros assaltos, assim pelo dito Duarte Gomes como pelo capitão João Tavares e outras pessoas nesta jornada foi infinito o trabalho, principalmente o da água, que não havia senão de muito ruins poços, pouca, e tão fedorenta, que era necessário com uma mão tapar o nariz, com a outra beber. Desta cerca marcharam para a Copaíba direitos, onde ao segundo dia pela manhã deram com outra dos inimigos, e por o nosso gentio dar o seu urro primeiro que entrasse, fugiram alguns, ainda que se fez incrível matança, e se tomaram 70 ou 80 vivos; aos fugidos foram dando alcance por uma parte, e por outra mais de uma légua até outra grande cerca, que estava despejada, na qual quis o nosso gentio descansar dois dias, e assim era necessário para o grande trabalho do caminho, que tinham passado, e por acharem ali rio de água, ainda que logo sobre ela começou de haver briga por acudirem os inimigos a defendê-la, ajudados dos sítios, porque esta Copaíba aonde estavam é toda feita em altibaixos de montes e abismos, e contudo, contra a regra geral do Brasil, é tudo massapés, e fertilíssima; pela qual causa havia nela cinqüenta aldeias de Potiguares, todas pegadas umas nas outras: ao outro dia pela manhã começou de recrescer a briga sobre a água, ainda que os nossos tinham ordem não fossem senão juntos, e a uma hora certa a buscá-la, e a dar de beber aos cavalos, acompanhados sempre com 10 ou 12 arcabuzeiros de guarda, todavia cresceram muitos inimigos, e tinham já feito uma caiçara sobre dia, que o ouvidor-geral lhes mandou desmanchar por Duarte Gomes com alguma gente: e porque começaram a flechar, e se recolheram, assentou com o Braço que à tarde lhes lançasse uma cilada por cima, tornando-se primeiro a travar a briga, em que bem cevados lhes dessem nas costas, e saindo a isso o Braço à tarde se alvoroçou o arraial dizendo estavam muitos inimigos sobre a água, saindo fora o ouvidor-geral, e vendo que da outra parte do rio, na ladeira, andavam dez ou doze nossos muito apertados, que não ousavam virar as costas, e carregavam sobre eles muitas flechas, e pelouros, mandou que fossem sete ou oito de cavalo socorrê-los com Francisco Pereira, que só passou, e Simão Tamares, e deitaram fora os inimigos, e recolheram os nossos com um já morto, e outro quase, e todos feridos de flechas e espingardas, e Francisco Pereira pior, que o fez aqui como bom cavaleiro, e João Tavares foi recolher o Braço de Peixe, que neste tempo mandou recado lhe acudissem, porque indo para fazer cilada aos inimigos, caíra primeiro em uma sua, e o tinham posto em aperto; com isto começou a entrar um medo espantoso em todos, e à noite foi avisado o ouvidor-geral em segredo por João Tavares estavam mais de 20 dos mais honrados ajuramentados para fugirem, ao que acudiu o ouvidor-geral fazendo­lhe uma fala de mil esforços, e outras diligências, com que lhes desfez a roda, e se assentou se desse pela manhã com boa ordem nos inimigos, para o que mandou aquela noite das tábuas de algumas caixas, que se acharam, fazer 10 paveses, detrás das quais os medrosos pudessem ir seguros, com o que animados todos / deixando primeiro queimado tudo, como sempre fizeram a todas as cercas, e aldeias que tomaram /, foram pela manhã buscar os inimigos, os quais estavam à vista em três tranqueiras, que eles armaram nos piores passos, umas diante das outras; e por na primeira tranqueira ou caiçara do rio haver detença pela moita resistência que acharam, passou lá o ouvidor­geral, e dando-lhes muita pressa, como quem entendia que nisto estava a importância, com sua chegada se levou sem nos ferirem pessoa, e com a mesma fúria remeteram a segunda, que era entulhada de terra em um vale, e lançando-se uma boa manga por um outeiro acima, ficando as outras duas no baixo; vendo os inimigos três mangas, e os braços que a meneavam, se assombraram de todo, que nem na terceira cerca pararam, ainda que não subiam os nossos a ela senão de pés e mãos, e sempre lhes custava muito, a se não terem lançado as mangas, que foi gentil ordem do ouvidor-geral, que nesta ocasião trabalhou muito, e nesta manhã cansou três cavalos, porque queria ver, e estar presente em toda a parte; e assim os ajudou Deus, e foram seguindo os inimigos mais de meia légua, até chegarem a uma aldeia, onde fizeram grande resistência, todo por salvarem as mulheres, e filhos que ali tinham, com que o negócio esteve em peso, porque três ou quatro vezes se viu a nossa vanguarda quase vencida, até que chegou o corpo da nossa gente com o ouvidor-geral, e carregando rijo os levaram vencidos, com mais três ou quatro aldeias, que no mesmo dia lhe foram destruindo, até se irem aposentar em um alto, donde viam trinta e tantas em menos de uma légua, que os inimigos com medo tinham despejado, e iam ardendo, sendo infinitos em número, e os nossos só 140, e 500 índios flecheiros.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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