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Livro 5 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Gaspar de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR DIOGO LUIZ DE OLIVEIRA - Capítulo 27 - De outros assaltos, que se deram à beira-mar aos holandeses

De Atlas Digital da América Lusa

Vendo os holandeses que por terra ganhavam mui pouco, e os não deixavam chegar às fazendas de fora, determinaram ir a elas por mar, socapa / como eles diziam / de buscar algum refresco por seu dinheiro, ou a troco de outras mercadorias; e para isto levavam às vezes alguns portugueses consigo, dos que entre si tinham, para que segurassem aos outros da paz, e quando não quisessem lhes fariam guerra, mas também disto se preveniu o bispo, mandando que os que tinham engenhos, e fazendas junto a praia se fortificassem, e assistissem nelas, e por esta causa mandava sair de cada freguesia 20 homens a assistir no arraial, e com esta prevenção se defenderam dos inimigos em algumas partes, e ainda em outras os ofenderam, como fez Bartolomeu Pires, morador na boca do rio de Matuim, o qual vendo que de um patacho que ali se pôs saíam os holandeses às vezes ao engenho de Simão Nunes de Mattos, que está defronte na ilha de Maré, a comer com o feitor, porque seu dono não estava aí, se foi meter com eles, e os convidou para uma merenda no dia seguinte, avisando a Antônio Cardoso de Barros lhe mandasse gente para o ajudar, como mandou, e a pôs em cilada da outra parte do engenho, e mortas as galinhas, postas a assar para mais dissimulação, tanto que os teve juntos deu sinal aos da emboscada, os quais saíram, e mataram alguns, em que entrou um mercador holandês; e fugindo os mais para o batel, cativaram só três, que depois daí a seis meses tornaram a fugir de casa de Antônio Cardoso de Barros para os seus. Outros foram em uma nau à ponta da ilha de Itaparica, chamada a ponta da Cruz, e depois de a carregarem de azeite, ou graxa de baleia, que aí havia / porque aquele é o lugar onde se faz /, se foram ao engenho de Gaspar de Azevedo, que está na praia uma légua atrás da ponta, onde lhe não tomaram açúcar nem fizeram algum dano, antes lhe escreveram que viesse para o seu engenho, e moesse cana, e lhe dariam para isso negros, e toda a fábrica necessária, e somente a uma cruz de pau alta, que estava no terreiro do engenho, deram algumas cutiladas, a qual milagrosamente se torceu, e virou logo para outra parte, para a qual caminhando depois os holandeses acharam alguns moradores da ilha com Afonso Rodrigues da Cachoeira, que então ali chegou com o seu gentio, e mortos oito à flechadas, e arcabuzadas, lhes tomaram uma lancha com três roqueiras, e fizeram embarcar os mais com a água pela barba, e muitos mui malferidos; pelo que se ficou tendo aquela cruz em tanta veneração e estima dos católicos, que fazem dela relíquias, com que saram muitos enfermos de maleitas, e outras enfermidades. O capitão Francisco holandês foi em outra nau a ilha de Boipeba, que é de fora da barra, e entrando pelo rio dentro até a vila do Cairu, que será de 20 vizinhos, com duas lanchas de mosqueteiros; mandou o português que consigo levava à terra, e de lá veio com ele Antônio de Couros, senhor ali de um engenho, por ser amigo do dito capitão holandês Francisco, do tempo que nesta cidade esteve preso, como dissemos no capítulo nono deste livro; o qual Antônio de Couros, depois de se saudarem com as palavras, e cerimônias devidas, se virou ao português medianeiro, chamando-lhe tredo a el-rei, e parcial dos holandeses, e logo disse ao capitão que não queria com ele paz senão guerra, e para ela o ia esperar em terra, e foi tão honrado o holandês que, ou pelo seguro da paz que lhe havia dado, ou pela amizade e conhecimento que tinham dantes, ou pelo que fosse, nem por palavras, nem por obras lhe deu ruim resposta, antes se tornou para a nau, que havia deixado no morro de S. Paulo, que é a barra daquele rio, e daí para a cidade, depois tornou ao Camamu com outra nau, e com mais lanchas e soldados, e outro português, que havia sido seu carcereiro no tempo que esteve preso, e com muitos negros dos que haviam tomado dos navios de Angola, para ver se lhos queriam trocar por vacas, porcos, e galinhas, e também por lhe não responderem ao seu propósito, se tornou só com 12 bois, que tomou do pasto do engenho dos padres da companhia, e ainda estes lhes custaram oito holandeses, que os índios mataram à flechadas, e por haver levado as lanchas de vela perderam cá a presa de um navio de Viana, que vinha da ilha da Madeira carregado de vinhos, e mui embandeirado, ao qual estando já junto das naus holandesas para tomar a vala, e deitar âncora, tiraram de uma delas duas bombardadas, o que visto pelos portugueses do navio conheceram pelos pelouros que levavam ser de guerra, e largando todo o pano ao vento, que era largo, foram correndo pela Bahia dentro, indo também a holandesa, que era a nau Tigre, após ela, porém como se deteve em se desamarrar, e largar as velas, sempre o navio lhe levou esta vantagem, a qual bastou para a seu salvo se pôr na boca do rio de Matuim, onde a nau, por ser grande, que era de 350 toneladas, e não levar lanchas, não pôde chegar nem fazer-lhe dano. O dia seguinte chegadas as lanchas do Camamu as mandaram logo ao dito rio, onde por não acharem o navio, que se foi meter dali a uma légua na Petinga, deram na fazenda de Manuel Mendes Mesas, lavrador, e lhe tomaram algumas ovelhas, que viram andar no pasto, com que tornaram para as suas naus. O bispo mandou logo o capitão Francisco de Castro, e outros ao rio da Petinga, para defenderem o navio se lá fossem os holandeses enquanto se descarregava, e dele levaram seis peças de artilharia para o arraial, e sabendo que uma nau se pusera entre a ilha dos Frades, e a de Maré, para daí com a sua lancha tomar os barcos, que por aqueles boqueirões navegavam, encarregou ao capitão Agostinho de Paredes que andasse por aí em uma barca para lhe impedir as presas, e ver se podia tomar-lhes a lancha, porém eles se guardaram disso, porque estando ali 20 dias, e saindo nela quase cada dia o capitão, que se chamava Cornélio Corneles, com 25 mosqueteiros, ou quando ele não ia o piloto, a qualquer barco que passava, tanto que o barco encalhava em terra, ou se metia pelos boqueirões o deixavam, e se tornavam à nau, o que eu sei como testemunha de vista, porque neste tempo ainda estava cativo nesta nau, e um dia lhes disse que se desenganassem de poder fazer presa alguma; porque estava defronte uma fortaleza, mostrando-lhe uma igreja de Nossa Senhora do Socorro de muitos milagres, a qual defendia todo aquele circuito, do que muito se riram, mas enfim se tornaram para o porto da cidade sem pilhagem alguma.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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