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Livro 3 - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Tomé de Souza ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Manuel Teles Barreto - Capítulo 11 - Da viagem, que fez Jorge de Albuquerque de Pernambuco para o reino, e casos que nela sucederam

De Atlas Digital da América Lusa

Não faltavam também neste tempo guerras em Pernambuco, porque com aquela vitória, que os gentios do cabo de Santo Agostinho alcançaram de Jerônimo de Albuquerque, de que fizemos menção no capítulo undécimo do livro precedente, ficaram tão soberbos, e atrevidos, que não cessavam de dar assaltos nos escravos que os portugueses tinham em suas roças, e fazendas, e principalmente em outros gentios da mata do Brasil, nossos confederados, que eles tinham par mortais inimigos; e o mesmo faziam os do rio de São Francisco nos barcos que iam ao resgate, que se ao descoberto comerciavam, e mostravam amor aos portugueses, em secreto se colhiam alguns descuidados os matavam, e comiam. Sobre tudo isto a rainha d. Catarina, que governava o reino, e não teve menos cuidado em mandar acudir a estas guerras que às do Rio de Janeiro, mandando que logo se embarcasse Duarte Coelho de Albuquerque herdeiro daquela capitania, e a viesse socorrer, o qual, por entender quão necessário lhe era trazer consigo seu irmão Jorge de Albuquerque, pediu à rainha que o mandasse como mandou, e ele obedeceu, assim por serviço da Rainha e del-rei, seu neto, como por dar gosto a seu irmão, e o ajudar. E assim, tanto que chegaram a Pernambuco, e tomou Duarte Coelho de Albuquerque posse da sua capitania, que foi na era de mil quinhentos e sessenta, logo chamou a conselho os homens principais do governo da terra, e se assentou entre todos, que se elegesse por general da guerra Jorge de Albuquerque, o qual aceitando o cargo começou logo a fazer assim aos inimigos do cabo de Santo Agostinho, saindo-lhes muitas vezes ao encontro aos seus assaltos, matando, e ferindo a muitos, com que já deixavam alargar-se os brancos, e viver em suas granjas, como aos do rio de São Francisco, aonde foi em companhia de seu irmão, e neste militar exercício se ocupou cinco anos, sofrendo muitas fomes, e sedes, e não sem derramar seu sangue de muitas flechadas, que os inimigos lhe deram, até que enfadado mais das guerras civis, e dissensões dos portugueses amigos que destoutras, determinou ir-se outra vez para o reino, e embarcar-se em uma nau nova de duzentos tonéis, por nome Santo Antônio, que estava carregada no porto do Recife para Lisboa, de que era mestre André Rodrigues, e piloto Álvaro Marinho, e estando carregada a nau, se embarcou, e partiu em uma quarta-feira, 16 de maio do ano de 1566, e não era bem fora da barra, quando lhe acalmou o vento com que partiu, e se lhe tornou tão contrário, que com a corrente da maré, que começava a vazar, levou a nau através até dar em um baixo, onde esteve quatro marés mui perto de se perder, se os mares foram mais grossos; e por lhe acudirem com presteza muitos batéis e outras embarcações, se salvou toda a gente, e fazenda, e nem assim descarregada pôde sair do baixo, em que estava, sem lhe cortarem os mastros, pelo que lhe foi forçado tornar ao porto, e concertar-se, e carregar de novo, no que gastou mês e meio, até 29 de junho, dia de São Pedro e São Paulo, em que se tornou a embarcar com todos os da sua companhia não sem contradição dos amigos, que pelo princípio lhe prognosticavam o ruim sucesso da viagem, a qual foi uma das piores, e mais perigosas, que hão visto navegantes; porque indo demandar as ilhas uma segunda-feira, 3 de setembro, fazendo-se o piloto com elas, veio a eles uma nau de corsários franceses, artilhada, e concertada como costumam, e por a nossa ir desarmada, e só com um falcão, e um berço, determinaram os homens do mar a se render, e entregar aos franceses, a que acudiu Jorge de Albuquerque, dizendo que nunca Deus quisesse, nem permitisse que a nau em que ele ia se rendesse sem pelejar, e se defender quanto possível fosse; por isso que trabalhassem todos de fazer o que deviam, e o ajudassem a pelejar, porque, com a ajuda de Nosso Senhor, somente com o berço, e falcão, que tinham, esperava se defender; mas como a nau ia tão desapercebida de armas, e os mais que nela iam fossem tão fracos de coração, não achou Jorge de Albuquerque quem o quisesse ajudar, mais que sete homens, que para isso se lhe ofereceram; e assim com estes somente, contra o parecer dos mais, se pôs às bombardas, arcabuzadas, e flechadas com os franceses perto de três dias, até que o mestre, e o piloto, vendo o muito dano que assim a nau como a gente recebia da artilharia, e arcabuzaria dos franceses, e que Jorge de Albuquerque em nenhum modo determinava entregar­se, mandaram dar subitamente com as velas embaixo, e começaram a bradar pelos franceses que entrassem a nau, como logo fizeram pela quadra dezessete franceses armados de armas brancas com suas espadas e broquéis, e pistolas, os quais, sem lhes responderem nem lhe poder estorvar se asenhorearam da nau, e vendo que nela não havia mais que o berço, e falcão, que esta dito, ficaram muito espantados, e muito mais quando lhe disseram quão poucos eram os que pelejavam, e sendo dito ao capitão francês que Jorge de Albuquerque fora o que fizera defender a nau todo aquele tempo, se chegou a ele, e lhe disse: Não me espanta o teu esforço, que esse tem todo o bom soldado, mas espanta-me a temeridade de quereres defender uma nau tão desapercebida com tão poucos companheiros, e menos petrechos de guerra, mas mão te desconsoles, que por quão bom soldado tu és, eu te farei muito boa companhia, e assim lha fez, tanto que não queria comer sem ele vir primeiro, e o fazia assentar na cabeceira da mesa, até que um dia, rogando-lhe o capitão que a benzesse ao modo dos portugueses, ele a benzeu com o sinal da cruz, como costumamos, do que alguns dos circunstantes luteranos o repreenderam, e ele repreendido, mas não arrependido, se tornou a benzer, dizendo que com aquele sinal da cruz se havia de abraçar enquanto vivesse, e nele esperava de se salvar de todos seus inimigos, e com isto pediu ao capitão licença para não ir comer mais, com eles, e poder comer em sua câmera o que lhe dessem, e posto que o capitão mostrou-se agravar-se disto, todavia lhe deu a licença que pedia, e vinha ele algumas vezes comer com Jorge de Albuquerque. Estando já em altura de 43º graus, em uma quarta-feira 12 de setembro, sobreveio a maior tormenta de vento que nunca se viu, com que a nau chegou a ficar sem leme, sem velas, sem mastros, e quase rasa com a água; e vendo-se todos em tão grande perigo, ficaram assombrados e fora de si, temendo ser esta a derradeira hora da vida, e com este temor se chegaram todos a umpadre da Companhia de Jesus por nome Álvaro de Lucena, que com eles ia, e a ele se confessaram, e depois de confessados, e se pedirem perdão uns aos outros, se puseram todos de joelhos pedindo a Nosso Senhor Misericórdia, o que também fizeram os franceses, que ficaram dentro da nossa nau, porque a sua logo no princípio da tormenta desapareceu, e pediam perdão aos portugueses dizendo que por seus pecados viera aquela tormenta, que rogassem a Deus por eles, que já se davam por mortos, pois a nau estava da maneira que todos viam. Mas Jorge de Albuquerque começou em altas vozes a esforçar a uns e outros, dizendo que fizessem também de sua parte o remédio possível, uns dando à bomba, outros esgotando a água que estava no convés; porque esperava na bondade divina, e intercessão da Virgem Senhora Nossa, que haviam de ser livres do perigo em que estavam; estando-lhes dizendo isto viram todos um resplendor grande no meio da grandíssima escuridão com que iam, a que todos se tornaram a pôr de joelhos, encomendando-se à Virgem, e pedindo a Deus Misericórdia, o qual foi servido de aplacar a tormenta, e logo apareceu também a nau francesa também muito desbaratada, mas não tanto que ainda não pudesse prover estoutra assim de enxárcia e velas como de mantimento, o que não quiseram fazer, antes descarregando-a de alguma fazenda que tinha em si, e levando os seus franceses, se foram para França, deixando só aos portugueses dois sacos de biscoito podre, e uma pouca de cerveja danada, ao que se ajuntou uma botija, que ainda os nossos tinham, com duas canadas de vinho, e um frasco de água de flor, uns poucos de cocos, e poucos punhados de farinha de guerra, e seis tassalhos de peixe-boi, que Jorge de Albuquerque foi repartindo por trinta e tantos homens o tempo que durou a viagem, para a qual deu ordem com que se fizesse uma vela de alguns guardanapos e toalhas, que se acharam na nau, as quais mandou se ajuntassem a uma velinha de esquife dos franceses, que ficou, e de dois remos fizeram uma verga, e sobre o pé do mastro grande puseram um pedaço de pau de duas braças em alto, e de uns pedaços de enxárcia, que haviam ficado, e de cordas de rede, e morrões, fizeram enxárcia; o leme andava pendurado por um só ferro, que lhe ficou, e lançaram-lhe umas cordas para que pudesse servir, e com isto seguiram sua viagem, tomando a Nossa Senhora Mãe de Deus por guia, sem mais outra agulha ou astrolábio que prestasse, porque tudo lhe levaram os franceses; a qual os guiou de modo que milagrosamente se acharam defronte da sua igreja da Pena, entre as Barlengas e a serra de Cintra; ao dia seguinte se acharam mui perto da roca, e indo já a nau para dar à costa, passou por eles uma caravela, que ia para a pederneira, e pedindo aos homens dela que à honra da morte e paixão de Nosso Senhor os quisessem socorrer, e que lhes pagariam muito bem se os tomassem, e levassem à terra, responderam que Jesus Cristo lhes valesse, que eles não podiam perder tempo de viagem, e se foram sem alguma piedade, ou porventura houveram medo da nau por lhes parecer fantasma, porque nunca se viu no mar coisa tão dessemelhada para navegar, como o pedaço da nau em que iam; porém este medo ou crueldade não tiveram outros que iam para a Atouguia, os quais acudiram logo aos primeiros brados / que não podiam ouvir senão milagrosamente por estarem muito longe / e levaram a nau à toa até a porem em Cascais, a horas de sol posto; donde o infante d. Henrique, cardeal, que neste tempo governava o reino de Portugal, a mandou levar pelo rio acima, e pô-la defronte da igreja de São Paulo, para que todos os que a vissem dessem muitos louvores a Deus, por livrar os que nela vinham de tantos perigos como passaram. E assim, ainda que esta viagem pertence tanto a História do Brasil que vou escrevendo por ser ele o término a quo, e feita, e padecida por um dos capitães destas partes, e natural delas, contudo rogo aos que lerem este capítulo, que dêem ao Senhor as mesmas graças, e louvores; e tenham sempre nele firme esperança, que os pode livrar de todos os perigos.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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