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Livro 4 - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU Manuel Teles Barreto ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR Gaspar de Souza - Capítulo 20 - Da guerra, que Cristóvão de Barros foi dar ao gentio de Sergipe

De Atlas Digital da América Lusa

Muito estimou Cristóvão de Barros entrar nu governo do Brasil para poder ir vingar assim a traição, que o gentio de Sergipe fez aos homens da Bahia, de que tratamos no capítulo dezoito deste livro, como a morte de seu pai Antônio Cardoso de Barros, que ali mataram, e comeram, indo para o reino com o primeiro bispo desta Bahia, como tenho contado no capítulo terceiro do terceiro livro, e assim apelidou por isso muitos homens desta terra, e alguns de Pernambuco, e uns e outros o acompanharam com muita vontade, porque sendo guerra tão justa, dada com licença de el-rei, esperaram trazer muitos escravos. Fez capitão da vanguarda a Antônio Fernandes, e da retaguarda a Sebastião de Faria, edeterminando ir ao longo do mar, mandou primeiro pelo sertão Rodrigo Martins, e Álvaro Rodrigues, seu irmão, com 150 homens brancos, e mamalucos, e mil índios, para que levassem todos os Tapuias que de caminho pudessem em sua ajuda, como de feito levaram perto de três mil flecheiros e assim vendo-se com tanta gente, sem esperar por Cristóvão de Barros cometeram as aldeias dos inimigos, que tinham por aquela parte do sertão, os quais foram fugindo até se ajuntarem todos, e fazerem um corpo com que lhe resistiram, e puseram em cerco mui estreito, donde mandaram quatro índios dar conta a Cristóvão de Barros do perigo em que estavam, com que mandou apertar mais o passo, e chegando a um alto viram um fumo, a que mandou Amador de Aguiar com alguns homens, e trouxeram quatro espias, que tomaram aos inimigos, dos quais guiados os nossos chegaram aos cercados véspera da véspera do Natal, às duas horas depois do meio-dia, os quais vistos pelos contrários fugiram logo, e levantaram o cerco, mas não tanto a seu salvo, que lhes não matassem 600, e eles a nós seis. Dali desceram a cerca de Baepeba, que era o rei, e príncipe de todo este gentio, e tinha juntas da sua mais duas cercas, nas quais todas haveria 20 mil almas; os nossos fizeram suas trincheiras, e lhes tomaram a água, que bebiam, sobre que houve mortos, e feridos de parte a parte, mas da sua mais. Também lhes abalroaram o lanço de uma cerca, que eles logo refizeram, e por onde estava Sebastião de Faria abalroaram outra, da qual saíram, e nos mataram um homem, e feriram muitos, mas os nossos os fizeram retirar, matando-lhes 300. Finalmente determinou o Baepeba concluir o negócio, e para este efeito mandou avisar os das outras cercas, que saíssem contra os nossos para ele também sair, e colhendo-os em meio os matarem, o qual aviso levaram três índios aventureiros por meio do nosso arraial, porque não tinham outro caminho, às quatro horas da tarde, sem que lho pudessem impedir, mais que um deles que mataram. Ouvido pois o mandamento se saíram das cercas, e o nosso general lhes saiu só com os de cavalo, que eram 60 homens, e o pôs em fugida, não consentindo que os nossos os seguissem, como queriam, porque os da cerca principal do Baepeba não lhes dessem nas costas, donde à noite do Ano Bom de mil quinhentos e noventa, vendo-se sem os das outras cercas, e sem a água, começaram também a fugir, indo os mais valentes diante despedindo nuvens de flechas, com que forçaram os nossos por aquela parte estavam não só a dar-lhes caminho, mas ainda em lhes irem fugindo; porém o general atravessando-se-lhes diante, a brados, e com o conto da lança os fez parar, e voltar aos inimigos até os fazer tornar à cerca, onde entrando os nossos após eles, lhes mataram 1.600, e cativaram quatro mil. Alcançada a vitória, e curados os feridos, armou Cristóvão de Barros alguns caravelões, como fazem na África, por provisão de el-rei, que para isso tinha, e fez repartição dos cativos, e das terras, ficando-lhe de uma coisa, e outra muito boa porção, com que fez ali uma grande fazenda de currais de gado, e outros a seu exemplo fizeram o mesmo, com que veio a crescer tanto pela bondade dos pastos, que dali se provêm de bois os engenhos da Bahia e Pernambuco, e os açougues de carne. Está Sergipe na altura de 11º graus e dois terços, por cuja barra com os batéis diante costumam entrar os franceses com naus de mais de cem toneladas, e vinham acabar de carregar da barra para fora, por ela não ter mais de três braças de baixa-mar; e assim ficou Cristóvão de Barros não só castigando os homicidas de seu pai, mas tirando esta colheita aos franceses, que ali iam carregar suas naus de pau-brasil, algodão, e pimenta da terra, e sobretudo franqueando o caminho de Pernambuco, e mais capitanias do norte, para esta Bahia, e daqui para elas, que dantes ninguém caminhava por terra, que o não matassem, e comessem os gentios, e o mesmo faziam aos navegantes, porque ali começa a enseada de Vasa-barris, onde se perdem muitos navios, por causa dos Recifes que lança muito ao mar, e os que escapavam do naufrágio não escapavam, de suas mãos, e dentes, donde hoje se caminha por terra com muita facilidade, e segurança, e vem, e vão cada dia com suas apelações, e o mais que lhes importa, sem esperarem seis meses para monção, como dantes faziam, que muitas vezes se tinha primeiro resposta de Portugal que daqui ou de Pernambuco, e com ser tão boa obra esta, e digna de galardão, o que achou Cristóvão de Barros, quando tornou para a cidade, foi achar o seu lugar ocupado não só da provedoria-mor da Fazenda Real, de que ele havia pedido a el-rei o tirasse para poder assistir na sua, que tinha quatro engenhos de açúcar, mas também do governo, porque estando na dita guerra chegou Baltazar Rodrigues Sora com provisão para servir o cargo de provedor-mor, em que logo o bispo o admitiu; porém querendo logo entrar no governo, não lho consentiu, dizendo que a sua provisão não falava nisto, e a outra por onde Cristóvão de Barros governava não dizia só que governasse o provedor, como dizia a do ouvidor-geral, senão que o nomeasse por seu nome, e era graça pessoal; contudo insistiu o provedor Baltazar Rodrigues Sora, pedindo ao bispo pusesse o caso em disputa, como o pôs, ajuntando-se com outros letrados, teólogos, e juristas no Colégio da Companhia, donde sem valerem as razões do bispo saiu Baltazar Rodrigues com a sua pela maior parte dos pareceres, e entrou na mesa do governo. Porém tudo desfez Cristóvão de Barros com sua chegada, por ser contraparte não ouvida, que estava atualmente em serviço de el-rei, para o qual agravou Baltazar Rodrigues, e se foi com o seu agravo para o reino, donde nunca mais tornou.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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