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Salina Grande

De Atlas Digital da América Lusa

Coleção Levy Pereira

Salina Grande

Rio, entre 'R. de Gramama' (Guamaré) e 'R._Wavrin' (Rio das Conchas).


Natureza: rio.


Mapa:

MARITIMA BRASILIÆ UNIVERSÆ.


Capitania: Rio Grande.


Nomes históricos: Salina Grande; Salinas Gran∂Ԑ; Salinas Grandes; SalinԐs Gran∂Ԑ; máximas salinas; Rio Grande; Rio Açu; Uguassu; variú; R: garorohug; Quoaouguh; Quoacugh; Guoacugh; Guarahug; Gavnrohug; Guararahu; Guararuy; Guarerú; Wararugi; Warerugh; Otschunog; Ociunon; Ocyonon.


Nome atual: Rio Assu.


Notas:

1) Também pode-se interpretar este topônimo - termo no singular e em português - como a indicação do porto e/da região de salinas na foz do Rio Açu, nas proximidades da cidade de Macau-RN.

2) O Rio Assu também é conhecido como Rio Piranhas.

3) O município de Macau-RN é atualmente o maior produtor de sal marinho no Brasil, com muitas salinas em operação.

Vide mapa IBGE Geocódigo 2407203 MACAU-RN.

4) Há no mapa RG-N (Albernaz, 1626/1627) o rio 'R: das Salinas', relativamente pequeno, cuja barra fica imediatamente a oeste do 'R: guamare' (Guamaré), havendo mais dois rios interpondo-se entre este e o 'R: garorohug.' (Rio Assu), e no MBU 'R. Sira Salina' (Rio Mossoró) o que pode levar ao entendimento do porquê se denominar o Rio Assu de 'Salina Grande': desambiguação geográfica, pois há três rios com salinas no nome.

5) Caru-Aretuma, Carwaretame, é um rio, possivelmente o Rio Tubarão, que banha o povoado de Diogo Lopes, Macau-RN.

O prof. Olavo Medeiros Filho identifica-o com o rio conhecido como Barra do Fernandes.


Etimologia:

Salina - termo de origem portuguesa, salina, local onde se produz sal (NaCl);

Grande - termo de origem portuguesa, significando grande, enorme.

Citações:

►Mapa RG-N (Albernaz, 1626/1627), plotado como 'R: garorohug.', com barra no 'OCEANO MERIDIONAL' (Oceano Atlântico), entre 'R: guamare' (Guamaré) e 'R: omaratibo.' (possivelmente o Rio das Conchas).

►Mapa CE (IAHGP-Vingboons, 1640) #53 CAPITANIA DO ZIERA, plotado, 'Salinas Gran∂Ԑ', 'SalinԐs Gran∂Ԑ' (grafado duas vezes, em preto e vermelho), entre 'R. Gramana.' (Guamaré) e 'Pª. ∂Ԑ Mell.' (Ponta do Mel).

►Mapa Y-57 (4.VEL Y, 1643-1649) De Cust van Brazil tusschen de Bay Caÿsay en ponto abaron, plotada o delta do rio, 'variú:'.

  • Nota: 'variú' possivelmente é corruptela de u-açu, se a letra v for interpretada como a letra u.

►Mapa CE-RG (Orazi, 1698) PROVINCIE DI SEARÁ E RIO GRANDE, plotado, 'Salinas Grandes', entre 'R. Gramauma' (Guamaré) e 'Wairu' (Rio das Conchas). Também está identificado como 'Caysa', o que constata mais uma distração de Orazi (Andreas Antonius Oratij), pois há dois desses topônimos no mapa. O segundo está escrito na posição correta de 'Caysa' (Baía de Caiçara do Norte).

(Sousa, 1587), CAPÍTULO VIII - Em que se declara a costa do rio de Jagoarive até o cabo de São Roque, pg. 49, denomina-o Rio Grande:

Do rio Jagoarive de que se trata acima até a baía dos Arrecifes são oito léguas, a qual demora em altura de três graus. ...

Desta baía ao rio S. Miguel são sete léguas, a qual está em altura de três graus e 2/3, em a qual os navios da costa surgem por acharem nela boa abrigada. Desta baía ao rio Grande são quatro léguas o qual está em altura de quatro graus. Este rio tem duas pontas saídas para o mar, e entre uma e outra há uma ilhota, que lhe faz duas barras, pelas quais entram navios da costa. Defronte deste rio se começam os baixos de São Roque, e deste rio Grande até ao cabo de São Roque são dez léguas, o qual está em altura de quatro graus e um seismo; entre este cabo e a ponta do rio Grande se faz de uma ponta a outra uma grande baía, cuja terra é boa e cheia de mato, em cuja ribeira ao longo do mar se acha muito sal feito.

  • Notas:

1) A denominação portuguesa Rio Grande é tradução literal do tupi Y-açu (U-açu, ug-açu, hu-açu).

(Sampaio, 1901), pg 43-44, explana porque as corruptelas nas grafias portuguesa e neerlandesa derivadas da denominação tupi de rios são inevitáveis:

75—Y, a agua monosyllabo que é uma vogal guttural única, e que nenhuma graphia conseguiu ainda representar exactamente ; dahi também a variedade de sons que se lhe tem attribuido. Não existindo no portuguez o som do y grego, ou u dos francezes, a pronuncia da guttural tupi ficou, ora equivalente a i simples, como nos vocábulos: Icatú, Ipanema, ora equivalente a u, como em Utinga, Umirim.

Outras vezes, se procurou representar ou simular o som guttural do vocábulo, por meio de um h anteposto, ou de um g posposto, escrevendo-se Hicatú, agua boa ; Hipanema, agua ruim; Piráhy, rio do Peixe; Iperuig ou Ipirú-yg, rio do Tubarão.

2) Vide a interpretação geográfica desse trecho do roteiro em (Medeiros, 1997), abaixo.

(Laet, 1637), Descrição da costa do noroeste de Brasil entre Pernambuco e Rio Camocipe, do Relatório dos brasilianos, pg. 142, cita-o como Guaratahug:

Meia légua além, há um riacho chamado Barituba.

Uma légua além, há um rio para iates chamado Guaratahug. Entrando e subindo nesse rio com chalupas chegar-se-á a uma nação de tapuias inimiga dos portugueses - já amplamente mencionada acima - detrás da qual vivem os nhanduís. Neste rio, como também no Carwaretame, pode obter-se qualquer informação dos brasilianos, desde que haja um perito do idioma.

Meia légua além, há um riacho chamado Ugeguagewaryn.

(Margrave, 1648), Livro VIII - Que trata da própria Região e dos Indígenas:

@ Capítulo IV - Os habitantes do Brasil - pg. 268:

Nota. Os confins e habitações dos Tapuias, segundo a descrição de Jacob Rabbi, que morou vários anos entre eles, são os seguintes: ...

...

A um dia de viagem do Uguasu, acha-se o Yponi, onde se encontram muitas salinas; destas até outras salinas a distância é de quinze milhas; novamente destas até Aritawa é de nove milhas; até as máximas salinas (chamam-se salinas por excelência) há uma distância de três milhas; até Unapatubam é idêntica a distância; até Marytupa, são duas milhas, até Warerugh uma.. Este rio, também chamado Otschunogh, penetra, no continente, em direção ao Austro numa distância de mais de cem milhas. A uma distância de mais de vinte e cinco milhas do litoral marítimo, acha-se o grande lago Bajatagh com grande abundância de peixes. À esquerda deste, em direção ao nascente, acha-se outro chamado Igtug, pelos indígenas, mas ninguém penetra nele, por causa de peixes, que mordem, e são muito inimigos do homem. A este fica adjacente o vale Kuniangeya, tendo o comprimento de vinte milhas e a largura de duas. Atravessa-o o rio Otschunogh, abundante de peixes; aí se encontra grande abundância de animais silvestres e frutas.

...

Veneram principalmente o nascimento do sete-estrelo e aquelas estrelas adoram em lugar de divindade (*), cantando e conduzindo danças; particularmente no lugar para isto destinado, além de quarenta e cinco horas de jornada desde o Otschunoch, a onde vão acampar quando os frutos das florestas e dos campos na maior parte já estão maduros.

(*) (Câmara Cascudo, 1968), pg. 87 informa:

EXU - ... Nome dado igualmente à constelação das Plêiades ou Setestrelo, iací-tatá-eixu-iaba, as estrelas chamadas abelhas.

@ Capítulo XII - Acerca dos costumes, e dos usos dos Tapuias, segundo a narração de Jacob Rabbi que vivera alguns anos entre eles - pg. 281-282:

Nos meses de março e abril a maior força das águas desce dos montes, de sorte que o rio Otschunogh se enche, e suas margens transborda e invade o lago vizinho Bayatag, pelo qual tempo colhem tanta quantidade de peixes, quantas mulheres possam levar dificultosamente para os acampamentos; e seus principais frutos que estão maduros. Mas quando o rio volta ao seu leito, regressam às moradas costumeiras, eles consagram à atividade à sementeira; principalmente porém plantam o maior milho ou Maizium, vários legumes, e abóboras em forma de bilha.

►Plínio Ayrosa, em (Margrave, 1648), no GLOSSÀRIO, pg. XCIX:

WARERUGH - (Guarerú). Guarerú, segundo SAMPAIO, é o vaso da água, a vasilha, a tina para água. O topônimo, no entretanto, admite outras interpretações. MARCGRAVE dá este rio como o mesmo Otschunog. Graças aos informes de JOHANNES LAET, podemos verificar que, não só neste caso como em outros vários, os acidentes geográficos aparecem nas crônicas holandesas com dois nomes: um em língua geral ou tupi e outro em língua tapuia, embora com a mais desconcertante grafia. O rio Otschunog de MARCGRAVE é o mesmo Ociunon ou Ocyonon de LAET. Este mesmo autor grafa também Wararugi, evidentemente Guararuy.

(Câmara Cascudo, 1956):

@ pg. 271:

Há aí um rio que dizem ser Rio de Salinas ou Caru-Aretuma, três léguas de Guamaré. A seguir é a baía de Maretuba ...

@ pg. 234:

O segundo rio era o Quoaouguh, um dia adiante do Ociunon. Esse Quoaouguh é também grafado Guoacugh. Diogo de Campos, no Livro que dá rezão do Estado do Brasil, ou seu cartografo João Teixeira, chama o rio do Assu, Guarahug. Quoaouguh, Quoacugh Guarahug não são a mesma entidade? Assim o Quoaouguh será o Rio do Assu ou Piranhas.

Dois dias de viagem além do Quoaoucugh, Guoacugh, Guarahug ou Assu, passa o terceiro rio, Ocioro.

@ pg. 271-272:

A costa se torna mais alta e verde, com pequenos arbustos, até a ponta que chamam Ponta do Mel ... , aupres de lequelle sort un torrent salé dit Guararahu. Diogo de Campos chama Guarahug ao rio do Assu ou Piranhas, escrevendo João Teixeira na sua carta, Gavnrohug. ...

Depois da torrente salgada, dit Guararahu, o Guarahug do Livro que dá Rezão de Estado do Brasil, saem quatro riachos, rivieres, de meia em meia légua de distância, Guapetuba, Manetuba, Goraraçu e Persin. Poder-se-ia dizer que a baía de Meretuba fosse a barra do rio Assu, com seus três rios, Conchas, Cavalos e Amargoso, mas Laet, fiado em Figueiredo, coloca o rio Assu perto da Ponta do Mel e lhe dá o nome seiscentista de Guararahug.

(Câmara Cascudo, 1968), pg. 90:

GUARARUG: — Um nome do Rio Piranhas ou Rio Açu segundo Diogo de Campos, (1612). De guará-u, rio dos guarás, ou guirá-u, rio dos pássaros.

(Medeiros, 1997), A COSTA POTIGUAR EM 1587, DESCRITA POR GABRIEL SOARES DE SOUZA, apud (Sousa, 1587), pg. 17:

O Roteiro Geral, com Largas Informações de toda a Costa do Brasil, de autoria de GABRIEL SOARES DE SOUZA, publicado sob o título Tratado Descritivo do Brasil em 1587, também descreve o litoral da Capitania do Rio Grande (1). ...

A Baía das Tartarugas, pela distância indicada por Gabriel Soares de Souza, ficaria entre a atual ponta de Pedra Grande e a barra do rio das Conchas (pontal das Conchas).

...

O Rio Grande apontado por Soares de Souza, corresponde ao rio Amargoso ou Açu, distanciado cerca de 12 léguas do Mossoró. A ilhota começou a submergir em 1818, possuindo a denominação de Ilha de Manuel Gonçalves. Apresentava uma extensão de seis milhas, tendo a sua extremidade oriental na confrontação do rio Amargoso, Salgado ou Açu, atingindo, pelo ocidente, as proximidades do rio das Conchas.

...

O cabo de São Roque descrito por Gabriel Soares de Souza, corresponde à Ponta dos Três Irmãos, distanciada cerca de 12 léguas da ponta do Tubarão. Entre os dois pontos extremos, forma-se uma ampla baía, na qual existem várias salinas naturais, exploradas desde o início do povoamento do território. Defronte a essa baía estão os baixos de São Roque, representados por uma série de coroas ou urcas, todas com canal navegável entre sí.

(1) SOARES DE SOUZA, Gabriel ● Tratado Descritivo do Brasil em 1587, pp. 24-26.

(Medeiros, 1998):

@ O LITORAL POTIGUAR EM 1628, SEGUNDO GASPAR PARAUPABA E OUTROS INDÍGENAS, pg. 16-19:

Aos 20 de março de 1628, cinco indígenas brasileiros compareceram perante o notário Kilian van Renselaer, com a finalidade de prestarem informações detalhadas da costa nordestina brasileira, aos seus amigos neerlandeses. No tocante ao litoral da Capitania do Rio Grande, aqueles silvícolas assim o descreveram (1):

...

'Carwaretame, rio navegável, pouca água fresca; uma salina que produz sempre sal. A 3 léguas de Guamare.'

Tratava-se do rio, hoje conhecido por Barra do Fernandes.

'Barytuba, pequeno rio d'água salgada a meia légua de Carwaretame.'

O Barytuba, ou Marytupa, tomou posteriormente a denominação de rio Madeira, ou Arrombado. Era um dos cinco braços do rio Açu, à altura da sua barra. Dista umas 5 léguas de Carwaretama.

'Guararug, rio para navios, sem habitantes, a uma meia-jornada de marcha de Barituba. Os tapuias habitam as florestas do interior.'

O Guararug corresponde ao terceiro braço do rio Açu, o rio Amargoso, ou Salgado. O rio Açu era chamado pelos tapuias de Otschunogh. Ali moravam os terríveis janduís, aliados dos neerlandeses.

'Ugequageguarin, um pequeno rio, sem habitantes, a uma meia légua de Guararug.'

Corresponde a um outro braço do rio Açu, o atual rio dos Cavalos.

...

Os cinco indígenas autores dessas informações, chamavam-se: Gaspar Paraoupaba, do Ceará, 50 anos; Andreus Francisco, também do Ceará, 32 anos; Píeter Poty, Antony Francisco e Lauys Caspar, todos eles moradores em Baia da Traição, na Paraíba.

(1) GERRITSZ, Hessel • Jornaux et Nouvelles, etc,, pp. 171-173.

  • Nota: Interpreta-se, neste estudo, o Ugequageguarin como o 'R. Wavrin' do MBU (Rio das Conchas).

@ A DESCRIÇÃO DO LITORAL POTIGUAR, SEGUNDO JACOB RABBI, pg. 82, comentando a citação de (Margrave, 1648), Livro VIII, Capítulo IV:

O Otschunogh, ou Warerugh, correspondia ao atual rio Açu. O lago Bajatagh era a mesma lagoa do Piató, próxima à atual cidade do Açu. Igtug, ou Itu, hoje é denominada de lagoa de Ponta Grande, encravada na antiga sesmaria, do Itu, ora pertencente à família Montenegro. Os temidos peixes mencionados por Rabbi são as perigosíssimas piranhas.

@ JOANNES DE LAET, GASPAR BARLÉU E SUAS DESCRIÇÕES DOS RIOS HABITADOS PELOS TAPUIAS DE JANDUÍ E CARACARÁ, pg. 63:

JOANNES DE LAET, escrevendo sobre o período da dominação flamenga, do seu início até o ano de 1636, refere-se ao território habitado pelos tapuias de Janduí e Caracará (1).

Consideravam como sua uma extensão de terras compreendida entre cinco rios. O primeiro, a partir do Rio Grande em direção para o interior, os Tupis chamavam Wararugí e os Tapuias Ociunon.

Tal rio corresponde ao atual rio Açu, cuja distância para o Rio Grande (Potengi) equivalia a cinco dias de viagem, indo aqueles tapuias desacompanhados de suas mulheres e crianças. Indo estas, a viagem se prolongava pelo dobro do tempo.






Citação deste verbete
Autor do verbete: Levy Pereira
Como citar: PEREIRA, Levy. "Salina Grande". In: BiblioAtlas - Biblioteca de Referências do Atlas Digital da América Lusa. Disponível em: http://lhs.unb.br/atlas/Salina_Grande. Data de acesso: 18 de setembro de 2019.


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