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Livro 2 - DA HISTÓRIA DO BRASIL NO TEMPO DO SEU DESCOBRIMENTO - Capítulo 8 - Da capitania de Pernambuco, que el-rei doou a Duarte Coelho

De Atlas Digital da América Lusa

Edição feita às 08h42min de 9 de janeiro de 2013 por Tiagogil (disc | contribs)

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As 50 léguas de terra desta capitania se contêm do rio de São Francisco, de que tratei no capítulo próximo passado, até o rio de Iguaraçu, de que tratei no capítulo segundo deste livro, e chama-se de Pernambuco, que quer dizer mar furado, por respeito de uma pedra furada, por onde o mar entra, a qual está vindo da ilha de Itamaracá, e também se poderá assim chamar por respeito do porto principal desta capitania, que é o mais nomeado, e freqüentado de navios que todos os mais do Brasil, ao qual se entra pela boca de um recife de pedra tão estreita, que não cabe mais de uma nau enfiada após outra, e entrando desta barra, ou recife para dentro, fica logo ali um poço, ou surgidouro, onde vem acabar de carregar as naus grandes, e nadam as pequenas carregadas de 100 toneladas, ou pouco mais, para o que esta ali uma povoação de 200 vizinhos com uma freguesia do Corpo Santo, de quem são os mareantes mui devotos, e muitas vendas e tabernas, e os passos de açúcar, que são umas lojas grandes, onde se recolhem os caixões até se embarcarem os navios. Esta povoação, que se chama de Recife, esta em 80º uma légua da vila de Olinda, cabeça desta capitania, aonde se vai por mar, e por terra, porque é uma ponta de areia como ponte, que o mar da costa, que entra pela dita boca, cinge ao leste, e voltando pela outra parte faz um rio estreito, que a cinge ao oeste, pelo qual rio navegam com a maré muitos batéis, e as barcas, que levam as fazendas ao varadouro da vila, onde esta a alfândega. A vila se chama de Olinda, nome que lhe pôs um galego, criado de Duarte Coelho, porque andando com outros por entre o mato buscando o sítio onde se edificasse, achando este, que é em um monte alto, disse com exclamação e alegria, Olinda. Desta capitania fez el-rei d. João Terceiro mercê a Duarte Coelho, pelos muitos serviços que lhe havia feito na Índia na tomada de Malaca, e em outras ocasiões, o qual como tinha tão valorosos e altos espíritos, fez uma grossa armada em que se embarcou com sua mulher d. Beatriz de Albuquerque, e seu cunhado Jerônimo de Albuquerque, e foi desembarcar no rio de Iguaraçu, onde chamam os marcos, porque ali se demarcam as terras de sua capitania com as de Itamaracá, e as mais que se deram a Pero Lopes de Souza, onde já estava uma feitoria de el-rei para o pau-brasil, e uma fortaleza de madeira que el-rei lhe largou, e nela se recolheu, e morou alguns anos, e ali lhe nasceram seus filhos Duarte Coelho de Albuquerque, e Jorge de Albuquerque, e uma filha chamada d. Ignez de Albuquerque, que casou com d. Jerônimo de Moura, e cá morreram ambos, e um filho, que houveram, todos três em uma semana. Dali deu Duarte Coelho ordem a se fazer a vila de Iguaraçu uma légua pelo rio adentro, do qual tomou o nome, e também se chama a vila de São Cosme e Damião, pela igreja matriz, que tem deste título, e orago, a qual é mui freqüentada dos moradores da vila de Olinda, que dista dela quatro léguas, e de outras partes mais distantes, pelos muitos milagres, que o Senhor faz pelos merecimentos, e intercessão dos santos. Esta vila encarregou Duarte Coelho a um homem honrado Viannez chamado Afonso Gonçalves, que já o havia acompanhado da Índia. Da vila de Iguaraçu, ou dos santos Cosmos, mandou vir de Viana seus parentes, que tinha muitos, e mui pobres, os quais vieram logo com suas mulheres e filhos, e começaram a lavrar a terra entre os mais moradores, que já havia plantando mantimentos e canas de açúcar, para o qual começava já o capitão a fazer um engenho, e em tudo os ajudavam os gentios, que estavam de paz, e entravam e saíam da vila com seus resgates, ou sem eles, cada vez que queriam, mas embebedando-se uma vez uns poucos se começaram a ferir, e matar de modo, que foi necessário mandar o capitão alguns brancos com seus escravos, que os apartassem, ainda que contra o parecer dos nossos línguas, e intérpretes, que lhe disseram os deixasse brigar, e quebrar as cabeças uns aos outros; porque se lhes acudiam, como sempre se receiem dos brancos, haviam cuidar que os iam prender, e cativar, e se haviam de pôr em resistência, e assim foi, que logo se fizeram em um corpo, e com a mesma fúria, que uns traziam contra os outros, se tornaram todos os nossos, sem bastar vir depois o mesmo capitão com mais gente para os acabar de aquietar, e o pior foi que alguns, que ficaram fora da bebedice, se foram logo correndo à sua aldeia apelidando arma; porque os brancos se haviam já descoberto com eles, e tinham presos, mortos, e cativos, e feridos quantos estavam na vila, e assim o iriam fazendo pelas aldeias, e para mais confirmação desta mentira levavam uns dos mortos, que era filho do principal da aldeia, com a cabeça quebrada, dizendo que por ali veriam se falavam verdade, o qual visto, e ouvido pelo principal, e pelos mais se puseram logo em arma, e foram dar nos escravos do capitão, que andavam no mato cortando madeira, onde mataram um, os outros fugiram para a vila a contar o que se passava; e não bastou mandar-lhes o capitão dizer que os seus próprios fizeram a briga, e se mataram uns aos outros com a bebedice, e que os brancos foram só apartá-los, e eram seus amigos; nada disto bastou, antes apelidou o principal o das outras aldeias mandando-lhes parte do escravo do capitão, que haviam morto, para que se cevassem nela, como os da sua haviam feito na outra e assim se ajuntaram infinitos, e puseram em cerco a vila, dando-lhe muitos assaltos, e matando alguns moradores, e entre eles o capitão Afonso Gonçalves de uma flechada, que lhe deram por um olho, e lhe penetrou até os miolos, o qual os da vila recolheram, e enterraram com tanto segredo, que o não souberam os inimigos em dois anos, que durou o cerco, antes viam tanto vigia, e concerto, que parecia estar dentro algum grande capitão, sendo que cada um o era de si mesmo, e a necessidade de todos; porque até as mulheres vigiavam o seu quarto na fortaleza enquanto os homens dormiam, e estando elas de posto uma noite, vendo os inimigos tanto silêncio, que parecia não haver ali gente, subiram alguns, e começaram a entrar pelas portinholas das peças, mas elas, que os haviam sentido subir, os estavam aguardando com suas partasanas nas mãos, e quando estavam já com meio corpo dentro lhas meteram pelos peitos, e os passaram de parte a parte, e uma não contente com isso tomou um tição, e pôs fogo a uma peça com que fez fugir os outros, e espertar os nossos, que foi um feito mui heróico para mulheres terem tanto silêncio, e tanto ânimo. O aperto maior que houve neste cerco foi o da fome; porque se não podiam valer de suas roças, onde tinham o mantimento, nem do mar para pescar e mariscar, e se da ilha de Itamaracá os não socorreram pelo rio em um barco, sem dúvida morreram todos à fome; e ainda este socorro lhe quiseram estorvar por muitos modos, mandando ameaçar aos da ilha, que só por isto lhes iriam fazer guerra, e esperando o barco; quando passava, lhe tiravam de terra muitas flechadas, pelo que era necessário ir mui bem empavesado, e contudo sempre feriam alguns remeiros, e uma vez determinaram fazer uma armadilha com que metessem o barco no fundo com quantos iam nele, e para este efeito cortaram uma grande árvore, que estava em uma ponta de terra, por onde haviam de ir costeando, e não a cortaram de todo, senão quanto se tinha por uma corda, para que quando passasse o barco por junto dela então a largassem e deixassem cair; mas quis Deus que eles caíssem na armadilha, que fizeram, porque a árvore não caiu para fora, senão para a terra, e os colheu debaixo, matando e ferindo a muitos. Outros muitos milagres obrou Nosso Senhor neste cerco, pela intervenção dos bem­aventurados S. Cosme e Damião, padroeiros desta vila, que se isto não fora não se puderam sustentar com tantas necessidades quantas padeciam. Nem Duarte Coelho os podia socorrer, por estar também neste tempo em contínuos assaltos do gentio na vila de Olinda, e lhe terem por terra todos os caminhos tomados; somente mandou levar em uns barcos as crianças, e a mais gente, que não pudesse pelejar; porque não estorvassem, nem comessem o mantimento aos mais, que não foi pequeno acordo para aquele tempo, até que quis Nosso Senhor, que os mesmos inimigos, cansados já de pelejar, se pacificaram, e tornaram a ter paz, e amizade com os brancos, com o que tornaram a fazer suas fazendas.


Ficha técnica da Fonte
Autor: Frei Vicente do Salvador
Data: 1627.
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